Bem-vindo ao nosso Blog

Esse espaço é seu e suas opiniões e comentários são essenciais para que possamos torná-lo o mais útil e agradável possível. Obrigado! <<<(((||)))>>> "Enfim, é disso de que trata o blog, de assuntos variados que traduzam com palavras simples e críticas esses caminhos e descaminhos que a humanidade percorre na estrada da vida, expressos através de um desejo profundo e intimamente meu: Quero ser mais humano: menos hipocrisia, menos espiritualidade alienante, menos moralidade vazia, muito mais HUMANO."

sábado, 9 de janeiro de 2010

10-Construir / 10-Igualdades - Continuação


Percebe-se que gosto de observar a natureza. O motivo é muito simples: somos a sua parte mais complicada. Mas até nessas últimas palavras é possível notar que costumamos ter dificuldades em reconhecermo-nos também como natureza. Temos uma consciência, dizemos. É exatamente essa consciência que nos torna a parte mais complicada da natureza. Julgamo-nos superior a todo o restante da natureza e por isso tratamos de falar sobre os humanos como um aparte.

Se castores constroem uma represa a tudo chamamos natureza. Se homens constroem uma represa, tal empreendimento é uma criação humana e por isso não chamamos natureza. Um João-de-barro constrói uma casa e à sua casa e a ele chamamos natureza. À casa que construímos não chamamos natureza, afinal somos especiais, uma espécie superior a todas as outras. As demais espécies não possuem consciência, fazem o que ordena o instinto. Aquilo que constroem jamais será uma criação, uma arte, um artifício, será natureza, natural, e as nossas criações artificiais. Por isso quando quero dizer que gosto de observar a natureza já saberão que estou falando do todo que exclui os seres humanos e suas criações, pelo menos tudo o que exclui o que depende da consciência e vontade humana. Sim, porque as desigualdades de origem natural também acometem os homens, ainda que estes sejam tão especiais diante de todo o “resto”. Somos acometidos por doenças e deformidades congênitas, tal qual qualquer outra espécie animal e até vegetal. E tais fatores deixarão alguns de nós numa situação de desvantagem em relação aos demais, nos farão desiguais entre nós mesmos.

No mundo da informação, onde quem conhece mais tem infinitamente mais chances de galgar melhores condições de vida na sociedade, um deficiente visual jamais terá à sua disposição os recursos que têm à disposição aqueles que podem ver. Claro que a tecnologia poderá dar um jeito nesse “jamais”, tornando-o novamente igual, mas é só um exemplo. Sempre existirão os sorteados pela natureza para serem desiguais.

Mas não somos apenas atores das desigualdades entre os homens. Somos também autores. Com uma diferença, lembremos: temos consciência. Se um raio cai sobre uma residência e mata a todos ali presentes, dizemos que não houve culpados nesse ato: foi a natureza. Se apertamos um botão direcionando um míssil a uma residência temos então um ato de crueldade. Afinal, somos especiais, temos consciência, temos liberdade de escolha, temos vontade. Um ato humano não é um ato da natureza. Evoluímos da natureza e voltaremos para ela, mas no momento em que ganhamos a consciência em alguma fase do nosso desenvolvimento (tanto no âmbito da evolução da espécie como um todo quanto no desenvolvimento de cada indivíduo, desde o fim da fase infantil até à morte), essa consciência nos tira a condição de natureza e transforma as nossas ações de “naturais” para “conscientes”. Gafanhotos podem destruir uma plantação inteira. Destruir é o que dizemos. Estão apenas se alimentando. Organismos vivos podem dizimar uma população inteira de animais ou de homens, como o fazem os vírus. Um meteoro pode acabar com toda a vida do planeta, ou mudanças climáticas como na era glacial.

Os exemplos são infinitos, de efeitos semelhantes (desigualdades, mortes, devastações, queimadas, doenças, dores, etc.) causados tanto pela natureza quanto pelo homem. Não culpamos a natureza, apenas não conseguimos entender. A velha questão da origem do mal. Jamais poderemos punir gafanhotos por “devastar” plantações que forneceriam alimentos para nós. Também jamais seremos indiciados por animais silvestres por destruirmos o seu habitat natural. Bem, se formos indiciados pela natureza por algum crime cometido contra ela talvez nunca entendamos a linguagem utilizada no processo e no veredito. Ou quem sabe entendamos e optemos por não cumprir, afinal somos especiais. Temos consciência. Somos tão diferentes da natureza, não é? Não entendo porque os desastres naturais são tão injustos. Nós, os humanos, que temos consciência, bem, nós somos muito mais... É... Muito mais... Muito mais o que mesmo? Justos. Justos? Não conseguimos entender os desastres naturais, mas dá para entender os desastres humanos? Acho que somos mais natureza do que pensamos.

Sempre existirão desigualdades entre os homens, tanto as de origem natural quanto as de origem humana, que também são naturais (natureza humana). Lutar por quê? Lutar para quê? Bem, não sei muito bem. Tem coisas que não deveríamos querer tantas explicações. Existem os vírus e no nosso corpo existe um sistema de defesa. Esse sistema de defesa luta contra tudo aquilo que intenta causar dano ao corpo. Essa luta nos mantém vivos e saudáveis. Sempre haverá doenças, sempre haverá outros vírus, mas nem por isso o nosso sistema de defesa pára de lutar. Graças a Deus que esse sistema não tem consciência como nós. Vai que esse mecanismo que defende o nosso querido corpo resolve se perguntar: se isso nunca vai acabar, lutar por quê? Lutar para quê?

Um comentário:

Nerilin Trajano disse...

Ao terminar o primeiro parágrafo, pensei: "que raios está acontecendo com essa criatura para querer desistir, ou pregar a desistência?" e continuei lendo (não desisti!), com a mente aberta e o coração apertado, tentando encontrar alguma evidência que me levasse ao que lhe atormenta... Ah! Que bom saber que sua humanidade continua intacta! Que o que lhe leva a escrever são esses tormentos nossos de cada dia... Que bom que há um mecanismo de defesa! Que bom que vamos continuar lutando!

Belo texto.