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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Morte aos Verdes

Por Bruno Montarroyos

Era uma sociedade diferente aquela. Pessoas em filas para inúmeras pistas de corrida. Basicamente dois tipos de pessoas, as verdes e as azuis.

Os seres humanos azuis eram belíssimos, vistosos, fortes, dava gosto de se ver. Já os verdes, só de olhar para eles, muitas vezes a reação primeira era o medo.

A atividade diária de cada um era bem clara: Correr. Sim, correr. A pista não era em metros, mas em horas. Uma pista que tinha exatamente o tamanho de oito horas e não importava a velocidade, a chegada estaria a oito horas de distância da largada.

Bem próximo à chegada havia algumas pessoas elegantes bloqueando a passagem até a linha de chegada. As regras diziam que era necessário pedir com delicadeza, educação, calma, tranquilidade, paz, determinação e fé para que as pessoas elegantes saíssem do caminho. Se o pedido fosse conforme previsto nas regras, então as pessoas elegantes liberariam o caminho até a linha de chegada. Bem simples!

A qualidade de vida de cada pessoa ia sendo determinada pela quantidade de vezes que elas conseguiam cruzar a linha de chegada sem infringir as regras. Acesso a comida, a água, a lazer, à liberdade, etc., tudo era determinado pelas premiações ou penalidades. Infringir as regras era passível de duras penas. Tentar agredir ou empurrar as pessoas elegantes que bloqueiam a linha de chegada tinha como resultado espancamento, restrição da liberdade, proibição de acesso a água e comida, dentre outras.

Desde antes de nascer, ainda na barriga da mãe, ou mesmo recém-nascidos, todos participavam desta atividade até o final da juventude. As mães precisavam carregar os seus filhos enquanto eles mesmos não pudessem correr.

As pistas eram sempre duplas, um lado verde e um azul, mas quem corria de um dos lados não conseguia ter a visão do outro.

Ao mesmo tempo em que era liberado um verde para iniciar a corrida, era liberado um azul.
A multidão de verdes e azuis que esperavam a sua própria vez de correr podiam acompanhar uma cobertura sensacional pelos telões.

Mas os telões só mostravam na cobertura o caminho completo dos azuis. O único trecho do caminho dos verdes que aparecia na cobertura dos telões era a chegada. Bem, isso não seria um problema, porque era só prestar atenção ao percurso dos azuis, da largada à chegada e imaginar que o dos verdes seria igual, apenas mudando a cor.

As chegadas eram, de fato, iguais, a verde e a azul. Todavia, havia diferenças no caminho.
A pista dos azuis era perfeitamente conservada. Ao longo do caminho havia água disponível, e até paradas para refeições e descanso. Além disso havia uma torcida gritando palavras de motivação e até ajudando quando preciso em alguma dificuldade.

A pista dos verdes era cheia de buracos e armadilhas. Não havia água, nem refeições ou descanso no caminho, pelo contrário, havia diversos obstáculos e ainda carrascos que tornavam a corrida ainda mais dura para os verdes. Violência física e moral. Gritavam palavras de ódio, de desencorajamento, espancavam, jogavam pedras, coisas podres, mas como já falado, essa parte não saía na cobertura dos telões.

Todos podiam ver o que acontecia nas chegadas de todas as pistas, em forma de cobertura espetacular. Era possível ver a grande maioria dos azuis pedirem com delicadeza, educação, calma, tranquilidade, paz, determinação e fé às pessoas elegantes para saírem do caminho e, então, cruzavam felizes a linha de chegada. Apenas alguns poucos chegavam mal humorados e não conseguiam o controle suficiente para seguir as regras e terminavam sendo punidos, mas com toda a delicadeza, afinal, eram azuis, belos, fortes e davam gosto de se ver. Pra dizer a verdade, por serem azuis, muitas vezes nem eram punidos. Afinal, a sociedade é tão beneficiada com gente importante assim, não é verdade?

Ao mesmo tempo era possível ver como a grande maioria dos verdes chegavam descontrolados. Como não conseguiam pedir às pessoas elegantes conforme a regra, com delicadeza, educação, calma, tranquilidade, paz, determinação e fé, logo não eram atendidos. Revoltados, tentavam cruzar a linha de chegada com o uso da força, da violência, do desespero, machucando as pessoas elegantes. Não adiantava muito, pois alcançar a linha de chegada fora das regras, pelo menos para os verdes, significava, no lugar de premiações, duras penas, severas, violentas, dolorosas. Todavia, alguns poucos verdes, pouquíssimos mesmo, conseguiam manter o controle apesar de todas as dificuldades. Conseguiam seguir as regras e cruzar a linha de chegada. Sim, é verdade que algumas vezes mesmo conseguindo o controle para seguir as regras, alguns verdes não conseguiam que as pessoas elegantes quisessem sair da frente. As pessoas elegantes às vezes diziam que um olhar do verde teria indicado uma intenção que poderia significar falta de fé, ou coisa parecida. E davam a punição, devida e indevida. Mas são verdes, não é verdade? Que falta fariam a essa sociedade?

Casa pessoa voltaria a correr no outro dia, mesmo as penalizadas. Cada um voltaria a correr, dia após dia, até os dezoito anos completos, lembra? Voltariam a correr no outro dia, carregando os frutos de suas premiações ou de suas penalidades. Principalmente no caso dos verdes, muitos morriam antes de completar os dezoito anos, seja pelo acúmulo de penalidades das corridas, seja por serem exterminados pelo ódio popular. Isso explico abaixo.

Enquanto assistiam à cobertura espetacular pelos telões, todas as pessoas, inclusive as verdes, achavam que os verdes eram, de fato, pessoas muito más. Afinal é possível ver nos telões como elas são violentas, verdadeiros animais. Os telões mostram que ambos os corredores, o verde e o azul, saem em igualdade de condições, apesar de suas aparências físicas e de saúde, e a chegada é exatamente igual. É óbvio que os verdes são maus e os azuis são bons. Sim, há uns poucos verdes bons e uns menos ainda azuis maus, mas isso é só a exceção. Todavia essa exceção torna óbvio que todo verde poderia ser bom se assim o quisesse, não acha? Se uns conseguem porque todos os demais não conseguiriam? Obviamente porque não se esforçam o suficiente, bando de preguiçosos maus. Enfim, justa essa sociedade é sim, mas só falta exterminar todos os verdes infratores para que seja perfeita. E era isso o que a multidão conversava e repetia e aumentava o coro: Morte aos verdes infratores! Morte aos verdes infratores! Com certeza era a solução para os problemas daquela sociedade. E os próprios verdes que assistiam engrossavam o coro. A cobertura espetacular dos telões e a multidão endossando representavam uma veracidade infalível, cheia de autoridade.

Acontece que alguns verdes conseguiam enxergar a pista dos verdes também, fora dos telões. E se revoltavam contra o que acontecia em seu percurso. Eles gritavam outros sons. Não pediam a morte dos verdes infratores, mas pediam que houvesse punição aos carrascos, conserto dos buracos da pista dos verdes, que houvesse também água, refeições e descanso no caminho, que houvesse palavras de estímulo e ajuda também. Mas esse grito era recebido com vaias, com palavras de ódio que cresciam. A multidão achava sem sentido esse grito destoante. Será que esse povo não consegue enxergar a realidade? Está tão clara na cobertura espetacular dos telões. Deveriam morrer também, junto com os verdes infratores.

Os espancamentos, linchamentos, extermínios dos verdes que infringiam as regras nas chegadas das pistas eram aplaudidos. A multidão se realizava, se regozijava ao ver um verde, depois de violentar as pessoas elegantes, serem agredidos até à morte. Isso! Matem todos! É a solução! É a solução!


Mas o que chamava mais a atenção era que quando corriam duas mães, cada uma com um recém-nascido nos braços, uma verde e uma azul, os dois bebês, o verde e o azul, pareciam mais iguais do que pareceriam quando estivessem próximos aos dezoito anos. Isso se a morte precipitada do verde não viesse impedir a futura comparação.

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