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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Devaneios

É curioso observar como tudo ao nosso redor está intimamente ligado à forma como percebemos e vivemos a vida. O texto que se segue são devaneios sem uma finalidade específica. Tão somente devaneios.
Ao passar de ônibus por algumas das ruas do centro do Recife fiquei, como de costume, observando a beleza arquitetônica de alguns prédios muito antigos. Os detalhes suaves e delicados em suas fachadas trazem aos olhos e à alma um prazer indescritível. São desenhos tão belos. Com certeza deve ser bem trabalhoso fazer tantos detalhes em uma construção. Bem diferente da sensação que se pode experimentar ao olhar as construções mais modernas, onde as leis de economia de espaço e dinheiro, praticidade e funcionalidade são mais importantes que a singeleza estética. Afinal, para quê tanto detalhe na fachada de um prédio que só serve pra se ficar admirando. Não é útil para nenhuma outra coisa. Dá trabalho construir dessa forma. Dá trabalho cada vez que precisa pintar. Os serviços de pintura são muito mais caros em prédios com desenhos e detalhes bonitos do que em prédios simples e retos.
Fiquei a pensar: De fato é mais racional construir rápido e barato, reduzindo custos, facilitando as manutenções e maximizando os lucros.
As palavras rápido e lucro são de fato palavras de ordem em nossa sociedade do século XXI. Já não basta acesso à internet, agora precisa ser internet rápida (Banda Larga). Não basta poder comer na rua para não precisar voltar em casa entre turnos de trabalho, precisa ser fast-food.
Com essa tendência universal criamos novos paradigmas sociais. Agora não só comida rápida, comunicação em tempo real, ou leitura dinâmica, mas surgiram os amigos rápidos, diálogos rápidos, relacionamentos rápidos, sexo rápido (ou rapidinha). Tudo precisa ser instantâneo, imediato. Não temos mais tempo para cultivar amizades profundas e duradouras. Não temos mais tempo para longas conversas e limitamo-nos a curtos diálogos, geralmente superficiais. Temos muito mais amigos, é verdade. Mas vivemos as nossas amizades com muito menos intensidade. A leitura dinâmica nunca servirá para ler poesias porque é impossível experimentar as sensações de uma leitura poética em um ritmo acelerado. Já imaginou alguém declamando uma poesia como um locutor esportivo narra uma partida de futebol no rádio?
O lucro é da mesma forma a bola da vez. Como poderemos ter mais lucro? Como será mais barato? Na esfera pública das licitações é o pregão, agora eletrônico, que garante o melhor preço de compra. Isso pode significar baixos salários e condições de trabalho escravo na outra ponta, mas o que importa é comprar mais barato.
Com certeza é mais barato construir um prédio moderno que um prédio com detalhes coloniais. Será também mais barato alimentar-se tão somente de pílulas que contenham apenas o que for necessário ao organismo, quando isso for possível. Mas tais pílulas jamais poderão nos trazer os prazeres que as mais criativas e deliciosas guloseimas podem trazer. Será possível um dia programar a nossa audição apenas para o que nos for útil? Só ouviríamos o que quiséssemos e quando quiséssemos. Programar nossos corpos para não sentir dor? Escolheríamos apenas as sensações de prazer. Mas haveria prazer sem a dor? Poderíamos configurar nossos olhos para não ver o que pode nos ser nocivo? Jamais testemunharíamos violência, injustiça, agressão, acidentes e tantos outros fatos lamentáveis. Mas também não poderíamos exercer a nossa sensibilidade a essas coisas e até mesmo lutar contra elas. Programaríamos nossos narizes apenas para os prazeres olfativos? Tudo isso seria muito mais prático.
Existem dimensões em nossa natureza que não podem ser justificadas tão somente pela utilidade funcional. O elemento transcendental cerca a nossa vida de forma que sem ele não há vida. Somos dotados da capacidade de sentir prazer na gustação de alimentos. E como seria bom se fosse possível prolongar o sabor das delícias que comemos por quanto tempo quiséssemos. Infelizmente o sabor só dura enquanto a comida passa pela boca e para experimenta-lo novamente precisamos ingerir mais comida. Foi o prazer gustativo que fez surgir a arte da culinária e não a necessidade de sustentar o corpo. Sentimos sabor para termos prazer (por vezes desprazer, é verdade). O sabor não tem a finalidade de nutrição. Não é o sabor que nutre o corpo físico. O sabor nutre a alma, através do prazer. Foi a capacidade de transcender à lógica e à utilidade que fez nascer a arte da criação de perfumes e não a importância de sentir o “cheiro do perigo”. É verdade que é importante sentir o cheiro do gás vazando ou de incêndio para podermos nos proteger. Mas é nos aromas dos bons perfumes que exercemos a transcendência do olfato. É o nariz como meio de alimentar a alma e não como meio de proteger o corpo. Não basta fazer ninhos como os pássaros, nossos ninhos precisam ser obras de arte, com cores que nos tragam alegria, com objetos que ainda que não tenham utilidade alguma nos tragam boas sensações e sentimentos. Porta-retratos com fotos de pessoas que amamos, quadros que testifiquem uma conquista ou mesmo que nos tragam boas lembranças e pensamentos.
Temos desprezado a transcendência do orgasmo e nos contentado apenas com a imanência da ejaculação. Isso não apenas em matéria de sexo, mas também em outras dimensões de nossas vidas. Triste é que até o que parecia não ser possível encurtar, como a música, tem sido também vítima no nosso fast world. Digo que parecia não ser possível porque não podemos ouvir uma obra musical de uma hora em meia hora. Só tenho dois minutos para ouvir essa música de cinco minutos então vou aumentar a rotação da música. Ninguém faz isso. Mas por outro lado temos músicas de uma nota só e um só verso que se repete um milhão de vezes. Nos primeiros segundos você já ouviu a música inteira e é como se ficasse botando pra repetir. É a ejaculação musical precoce. Pior ainda porque não dá tempo de ninguém gozar.
Da forma como as coisas estão caminhando, é de se esperar que o homem evolua tanto que um dia ele consiga se tornar um computador. E quem sabe as pedras então passarão a se interessar por poesia, pelo belo, pelo simbólico, por relações sadias de profundidade, pela vida.

07/05/2007

2 comentários:

Andrea disse...

Olá, novo amigo! Hoje li com mais atenção e assim posso fazer algum comentário. Acho que você tem razão ao falar da superficialidade que vivemos atualmente, em todos os sentidos, mas cabe tão somente a nós evitar viver assim, mesmo inseridos num mundo que evolui cada vez mais pra isso!!! Que saibamos então viver também nesse mundo sempre em transformação e que possamos guardar o melhor do que já foi, de como éramos antes.
Gostei dos textos.
Abraço!

Rosana Ferreira disse...

Bruno,ADOREI o texto! Me deixou apoplética com a veracidade das palavras! Uma verdadeira crítica ao nosso "tão evoluído" século XXI. Sua maneira de escrever, bastante vanguarda, nos remete à nossa própria vivência... a cada parágrafo, um exemplo de nosso cotidiano. Incrível como sensibiliza nosso senso crítico e nos faz reletir sobre nossas escolhas e sobre o que realmente vale a pena: a nutrição ou o sabor? a ejaculação ou lembrar de uma única, mas incrível transa de orgarmos múltiplos? viver para o trabalho ou trabalhar para viver?!!!....
Valeu pela dica! Continue escrevendo...
Saudades demais,
sua amiga de sempre Rosana