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sábado, 24 de janeiro de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

PARTE I - Tábua I

A visita de Dona Taná


Aquele teria sido apenas mais um daqueles finais de tarde em que o descolorir do dia se precipita sem timidez. Os mares de Olinda pareciam querer fugir através de suas estreitas ruas. Balançavam freneticamente numa dança como que de uma grande multidão a experimentar as atividades mais rudimentares de acasalamento. A respiração ofegante daqueles milhares de amantes reunia-se contra toda a costa, varrendo dali qualquer pretensão de presença humana. Apenas as lágrimas divinas de comoção ainda não se juntara à paisagem, misto de violência e extremo prazer. As únicas lágrimas no momento pertenciam a Carpenaldo, que com os olhos fitos àquela orgia marítima, as sentia bailar sobre o seu rosto miúdo em direção aos seus ouvidos antes de se esvaírem aos céus. Aquele garoto de apenas oito anos não demonstrava nenhum temor diante de cena tão sombria. Estava só. Estava como se não estivesse lá. Imóvel e curioso acerca dos fatos que acabara de presenciar. Bem perto dali, numa das esquinas da rua por trás daquela banhada pelo mar, estava a casa de seus avós. Era a casa onde Carpenaldo morava desde que sua mãe o abandonou. Mas sobre os seus pais teremos oportunidade de conhecer mais tarde. Nessa tarde a novidade não era aquele mau tempo e sim uma visita inesperada que mudaria para sempre a história de Carpenaldo Diemedes dos Santos, seu nome de batismo. Era a primeira vez que o garoto conhecia de perto a velha hospitaleira e gentil que nunca negará a um ser qualquer que seja, até ao mais desprezível, um cômodo que lhe sirva de descanso: A morte, a velha Taná, apelido que tomo emprestado de sua correspondente do grego antigo tanatos. Dona Taná resolveu visitar o avô de Carpenaldo naquele não tão belo dia. Penso até que teria sido exatamente a confusão nos pensamentos do garoto naquele momento a causa de tamanha agitação no céu e no mar aquele final de tarde. E sentindo-se convidado pelo espetáculo que ele, sem o saber, teria acabado de criar, estava ali, sozinho, mergulhado no mais profundo de si mesmo. Assaltavam-lhe as palavras da avó: - Meu filho, assim o chamava, não se preocupe, ele está com Deus e agora viverá para sempre. Não compreendia o que isso queria dizer. Por que o seu avô não mais lhe responde quando o chama? Repetia diversas vezes a mesma frase mágica e infalível que transformava o seu avô em criança novamente: - Nem me pega hoje não, vovão gordão! E saía correndo desembestado para se livrar da fera que acabara de acordar. Mas a fera desta vez permanecia imóvel em sua cama como se estivesse aprisionado a um encantamento que o teria petrificado. As palavras “...e agora viverá para sempre” proferidas pela sua avó não o deixava em paz. Não conseguia encaixá-las devidamente na imagem inerte daquele corpo que um dia fora o seu avô. O mar sombrio de dúvidas experimentado por Carpenaldo nesse dia refletia simplesmente aquela antiga angústia humana que atormentava os nossos antepassados como a nós hoje. Afinal, quanta vida existe depois da morte? Quanto é para sempre? Não, infelizmente não saberia responder a essas questões. Mas há uma outra que me arrisco palpitar uma resposta: Quanta morte existe após a vida. Não responderia eterna porque não me sinto capaz de conceber tal conceito, eternidade. Mas depois de uma vida há morte o suficiente para durar ao menos toda uma vida de outro alguém. A morte do avô de Carpenaldo duraria para esse garoto todo o resto de sua vida, depois desses seus oito anos vividos ao lado daquele vovão gordão. Não sei quanta vida pode haver depois da morte, mas sei quanta morte sucede uma vida. Um dia Carpenaldo será confrontado pela primeira vez com a pergunta-chave de sua história: Quanta vida deve ornamentar uma vida para que a visita da Dona Taná não seja a uma vida já sem vida? Carpenaldo não teve oportunidade de conhecer os Avós de seus Avós. Eles já haviam morrido há pelo menos uns cinqüenta anos. Um dia eles estarão mortos a mais tempo do que o tempo que ficaram vivos. A morte aparentemente é bem mais longa que a vida. O garoto volta então para sua casa como uma pessoa bem diferente. Nunca mais será o mesmo. Por várias vezes ainda presenciará a visita da velhinha Taná. Até o dia em que ele próprio procurará em seus seios abrigo. Mas antes disso encherá de cores os seus dias, de luzes o seu caminho, de grandeza as menores coisas, enfim, encherá de mais vida a vida.
Assim inicia a jornada de Carpenaldo, que aos oito anos conheceu a morte e dela nunca mais esquecerá.

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