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domingo, 1 de março de 2009

A Epopéia de Carpenaldo: Uma jornada em busca da humanidade perdida

PARTE I - Tábua II

Os Monges


Já passavam das cinco da tarde quando Carpenaldo voltava do Alto da Sé, em Olinda, em direção à sua casa. Descia pela ladeira da Travessa Luiz Gomes, caminhando, na companhia de seu amigo mais velho Dionísio. Passaram pela pequena praça Dantas Barreto e em cinco minutos já estavam na esquina da Rua do Sol com a Floriano Peixoto, onde ficava a casa da avó de Naldo, sua casa também. Lá o aguardava dona Josefina, acompanhada de duas visitas inesperadas. Eram dois homens trajando vestes de monges. Vestiam uma espécie de roupão grosso cor de vinho escuro que descia até os seus pés e com mangas compridas e folgadas. Uma corda grossa os abraçava à altura de suas cinturas, fechando o roupão como um quimono. Junto ao pescoço caia uma cobertura para a cabeça, semelhante às encontradas em capas de chuva. Após se despedir de Dionísio, Naldo se depara com essas duas figuras em sua casa, cuja aparência lembrava a própria caricatura da morte, exceto pela falta da foice peculiar que carrega à mão. - É ele, disse Dona Josefina aos dois visitantes enquanto apresentava o seu neto. - Venha cá, menino, estes homens estavam te esperando. Você irá com eles. Acho que vai ser o melhor para você. Carpenaldo ficou estático. Todo o seu sangue parecia ter fugido de repente. Não poderia ser uma experiência real que estava vivendo naquele momento. Primeiro não sabia explicar os sentimentos que tomaram o seu pequeno corpo quando se aproximou daqueles dois homens estranhos, mesmo antes que a sua avó pronunciasse aquelas palavras sobre a sua iminente partida. Ao se aproximar daquelas visitas misteriosas Naldo olhou rapidamente para trás com a intenção de vislumbrar ainda o distanciar de seu amado amigo Dionísio. Mas foi tomado por um sentimento repentino de repulsa daquele companheiro até tão recentemente venerado. Olhava em volta para tudo aquilo que outrora provocara dentro de si uma explosão de prazeres dos sentidos, mas tudo agora parecia sem vida, sem cor, sem magia. E toda essa mudança surgiu instantaneamente quando ele chegara à presença daqueles dois personagens insólitos. Ao lado desses sentimentos repulsivos diante do seu mundo outrora belo, juntava-se um sentimento de profunda admiração e atração pelos seus visitantes aquele dia. Parecia emanar deles uma aura encantada que trazia à Carpenaldo, ao mesmo tempo, uma sensação de confiança irrestrita, bem como de um desejo irresistível de segui-los para onde quer que fossem. Ao ouvir a sua avó anunciar que ele deveria partir com aqueles desconhecidos, apesar de toda a força que o impulsionava àquele destino, ficou a se perguntar as razões de dona Fina em entregá-lo tão repentinamente a um futuro tão duvidoso. Lembrou-se logo de um fato acontecido por aqueles dias e que poderia muito bem ser a explicação que tanto precisava naquele momento. Voltava de mais uma de suas aventuras com o seu companheiro inseparável Dionísio. Ao entrar em casa sua avó teria percebido a possibilidade de seu neto indefeso estar portando material impresso não adequado à sua perfeita educação cristã, muito menos à sua idade. Naldo teria passado por ela, naturalmente, sem medo de estar contrariando quaisquer preceitos morais - se é que possuía alguma idéia sobre essas coisas, portando uma revista com fotografias de sexo explícito, fruto de uma de suas conversas com o seu amigo Baco – assim chamava Dionísio por achar complicado demais a pronúncia de seu nome polissílabo. Recolhido em seu canto no interior mais profundo daquela casa, entre os ecos dos motores que roncavam na Rua do Sol e o silêncio que conduzia a calma melodia do encontro das ondas com aquela costa ali tão perto, Carpenaldo viajava por entre as páginas mágicas da mais antiga arte dos prazeres humanos. Era como um descortinar de um mundo até então desconhecido, místico e anunciador de uma ludicidade tão intensa, profunda e ilimitada quanto o seu estado de admiração diante de tamanha novidade. E foi exatamente no auge dessa incandescência sensitiva que o surpreendeu o som ensurdecedor de censura da sua avó protetora que até então custava a acreditar em cena por demais assombrosa: -O que é isso, garoto! Que coisa horrorosa é essa que você está vendo? Inocentemente, com a certeza incontestável de que vó Fina estaria bastante equivocada quanto ao conteúdo do material em suas mãos, Naldo, recuperando-se do susto provocado por aquele estrondo sonoro de furor, responde com firmeza e simplicidade: -Calma, vó, pode olhar melhor aqui e vai ver que não precisa ter medo. São apenas fotos de gente grande brincando. Baco me disse que o nome dessa brincadeira é sexo. Disse mais: Que todas as pessoas e até os animais foram feitos quando o papai e a mamãe de cada um estavam brincando disso. É verdade, vó, que se meu pai e minha mãe nunca tivessem brincado de sexo eu não estaria aqui hoje? Bastante desconcertada pelo embaraço desse momento, dona Josefina retoma o fôlego para tratar com a severidade necessária aquele pesadelo. –Olha, menino, quero que saiba que isso que você fez é muito feio. Você não pode ficar vendo esse tipo de coisa. Papai do céu acha isso muito feio. Me dê pra cá logo essa praga e nunca mais me venha com uma maldição dessa para esta casa. E o garoto ficou perdido entre a tranqüilidade com que seu colega lhe apresentara aquele material e o desespero reprovador de sua avó tão querida. Estava agora explicado. Esse teria sido o motivo pelo qual a sua velhinha do coração o estaria abandonando àqueles homens. Aquele fato deveria ter realmente representado para a sua avó uma falta gravíssima, imperdoável, condenando-o à expulsão daquele casto lar. Lembrou-se ainda de como a sua teimosia teria ultrapassado todos os limites quando resolveu questionar Dona Fina, voltando ao mesmo assunto proibido, dias depois do ocorrido. –Vó, hoje eu vi um cachorro abraçando uma cadela por trás. Quando me aproximei, percebi que estavam brincando de sexo, igualzinho aos homens e mulheres naquela revista de meu amigo Baco. Aquela que a senhora queimou. Eles olharam para mim, mas continuaram. E tinham outros cachorros por perto, até filhotinhos. Ô, vó, não foi papai do céu quem fez os cachorros também? Por que eles não se escondem quando brincam de sexo, já que é tão feio e papai do céu não gosta? Por que papai do céu deixa eles brincarem na frente de todo mundo, até dos filhotinhos, e eu não posso ver nem fotos de gente grande brincando igualzinho? Lembrou-se da surra que tomou aquele dia. Dona Josefina precisava castigá-lo pela teimosia, apesar de ficar surpresa com as colocações do garoto, que a deixaram como que a viajar diante de observação tão óbvia que só poderia sair da mente virgem de um garoto de oito anos. Ora, dizemos que os animais são irracionais. O que isso significaria? Que assim como nós, humanos, temos a liberdade de ação e pensamento pelo uso da razão, os demais animais, esses irracionais, são escravos dos seus próprios instintos. As nossas ações, humanas, seriam fruto das decisões de nós mesmos, humanos. E as ações dos animais irracionais seriam fruto das decisões de quem? Ah, sim, de quem os programou. De quem eles herdaram seus instintos. Isso quer dizer que os seres humanos criaram suas próprias regras, já que tinham liberdade para isso, enquanto todas as demais espécies se mantiveram firmes nas regras naturais de seu criador.
As lembranças desses dois fatos trouxeram à Carpenaldo a razão que ele tanto procurava para agora estar deixando aquele lar sob as ordens de sua vó Fina. E seguiu o seu caminho, com seus dois novos companheiros, para viver nova fase de sua vida. Sem entender bem o porquê de estar profundamente atraído para aquele novo destino, incerto e desconhecido.

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