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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

A escravidão à Lei (Sistema)

Pode alguma coisa criada para o benefício do homem tornar-se mais importante do que o próprio homem, voltando-se contra ele? Pode o remédio da cura tornar-se o veneno da morte? Pensemos num enfermeiro de posse de uma ordem para a medicação de um paciente. Ao chegar ao leito do paciente ele se depara com uma situação atípica. Ele percebe que, naquela situação, o paciente não resistirá à medicação. Entretanto, para que a ordem se cumpra, ele sacrifica o paciente. Pensemos também em um engenheiro que sacrifica vidas para economizar no gasto de materiais para um edifício. Pensemos em um professor que para sentir-se um pouco mais, humilha o aluno que considera uma ameaça. Pensemos ainda no aluno que se promove ou sente-se promovido à medida em que pisa em seus colegas de turma. Não que isso aconteça...mas imaginemos, só imaginemos que sim. Tudo isso são exemplos de coisas que ganham valor maior que o ser humano. Todas essas coisas expressam uma certa escravidão do ser humano a algum sistema que estabeleceu as coisas como maiores que os seres. Assim também se procede com os preceitos, regras, com a Lei, da qual todos nós somos chamados à escravidão: A escravidão à Lei.
Jesus se deparou com essa realidade. No evangelho segundo Marcos, os versículos 23 ao 28, do Capítulo 2, nos mostram como isso ocorreu. Consideremos os versículos 23, 24 e 27:

23 Num sábado, Jesus e os seus discípulos estavam atravessando uma plantação de trigo. Enquanto caminhavam, os discípulos iam colhendo espigas.
24 Então alguns fariseus perguntaram a Jesus: -Por que é que os seus discípulos estão fazendo uma coisa que a nossa Lei proíbe fazer no sábado?
27 E Jesus terminou: -O sábado foi feito para servir as pessoas, e não as pessoas para servirem o sábado.

Podemos identificar claramente o interesse de Jesus em mostrar que o ser humano vale mais que qualquer instituição.

Em um primeiro momento...

1. A escravidão à Lei nos torna defensores da Lei

O questionamento dos fariseus (v. 24) nos mostra que a escravidão à Lei os levava a um esforço para mantê-la, ainda que à custa de atos desumanos.
Chegamos ao seminário cheio de sonhos e boas intenções. A vida na igreja um dia provocou em nós motivações sinceras de fazer algo mais em favor do Reino de Deus. Muitos de nós deixamos muitas coisas em nossa vida para vir ao Seminário. Um outro curso superior ou o desejo por outro curso superior, família, planos, sonhos, etc. Ansiamos por uma preparação melhor para “ganhar pessoas para Cristo”, que é o slogam baseado em nossa ingênua idéia de evangelização. Ilusões, ilusões...
Algum tempo no seminário (de calouros para veteranos, conforme a tradição) nos vemos como integrantes do Show de Truman (filme), habitantes da Matrix (filme), civilizados do Admirável mundo novo (livro de Aldous Huxley), o homem na caverna de Platão (em seu livro A República).
...Descobrimos que estávamos apenas contribuindo para a manutenção da escravidão à Lei, contribuindo para a manutenção do sistema. Estávamos querendo proteger, defender, guardar a Lei. Mas a Lei foi criada para defender, proteger, guardar o ser humano e não para ser defendida, protegida, guardada por ele.
Notamos, então, que a nossa idéia evangelizadora de “ganhar almas para Cristo” na verdade era de “alcançar cada vez mais humanos para torná-los cada vez menos humanos”. Isso faz lembrar muitos pregadores que usam uma velha ilustração dizendo: “Um aluno certa vez perguntou ao seu professor, que era evangélico: - Professor, qual a melhor hora para aceitar a Jesus e livrar-se do inferno? O professor respondeu: - Cinco minutos antes de morrer. O aluno saltou de alegria, pois poderia ainda curtir muito a vida. O professor, então dirigiu-se a ele e perguntou: -Qual o dia e hora em que você vai morrer? E o aluno ficou desconcertado. – Como você não sabe e pode ser a qualquer hora, continuou o professor, a melhor hora para aceitar a Jesus é agora”. O pregador, então, dizia que é lógico que, se ele soubesse o momento exato em que iria morrer ou, de igual forma, se não existisse céu ou inferno, estaria era “curtindo a vida adoidado”. Esse tipo de pregação apresenta o evangelho como um fardo pesadíssimo. Como um voto de mortificação, que só vale a pena porquê “nossa vida não é aqui. Aqui é apenas uma passagem para a vida de verdade e eterna”.
Talvez a música de Gonzaguinha tenha mais a ver com o evangelho de Cristo do que muitas de nossas músicas ditas evangélicas: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será. Mais isso não impede que eu repita: É bonita! É bonita e é bonita!” Vida em abundância! Isso não representou em Jesus uma metáfora do Céu, mas uma realidade possível em vida humana e terrestre.
É preciso termos uma razão bela para justificar o “ser evangélico” que não a vida no céu ou o sofrimento no inferno. Essa razão é a própria vida, a vida abundante. O evangelho propõe uma vida muito mais bela e atraente do que a que a maioria de nossas igrejas têm oferecido através dele. Não é um conjunto de proibições, mas um convite à liberdade e à vida. O evangelho de Jesus atraía multidões. Os que não eram atraídos a participarem eram, geralmente, os que se consideravam muito religiosos. Jesus traz uma nova revelação, mais elevada, o vinho novo que termina rachando os odres velhos dos religiosos de sua época (conforme ilustração no versículo anterior – v.22). Eles se negaram a tornarem-se vasos novos que pudessem suportar a novidade do evangelho. O vinho novo do evangelho só pode ser conservado se os vasos da tradição estiverem se renovando constantemente. Para isso é necessário saber que nenhuma instituição é sagrada por si mesmo. As pessoas é que são sagradas.

Em um segundo momento...

2. A escravidão à Lei se torna alvo de nossa crítica

Jesus apresenta nos versículos 25 ao 28 sua crítica racional (que busca a razão das coisas). Ele procurava, através dessa crítica, trazer à tona o sentido da Lei, em detrimento de sua letra.
Algum tempo no seminário e começamos a questionar muitas coisas. Coisas até demais. Viajamos em um mundo de idéias. Fazemos nossas intermináveis críticas. Filosofia, teologia, psicologia, crítica bíblica (mas, pode alguém criticar a Bíblia?!!), etc. Nossas críticas chegam aos extremos de esquecermos até a realidade. Nos colocamos numa alienação ideológica.
A crítica é um instrumento importantíssimo e extremamente necessário a todos nós, mas precisamos cuidar para que ela não se torne um fim em si mesmo. A crítica precisa de um alvo maior do que ela, senão ela mesma será a Lei que nos escraviza. Seremos escravos da crítica da escravidão da Lei. A crítica pretende elucidar, fundamentar, enraizar conceitos anteriormente recebidos de forma apriorística.
Nossa crítica deve estar a favor do resgate de uma essência. Quando Jesus criticou o sistema de sua época não foi pelo simples prazer de criticar, mas pelo interesse de fazer emergir um sentido mais profundo de tudo aquilo.
Nesse período de Seminário em que nos colocamos em favor dessas construções críticas, muitos de nós (a maioria) mergulhamos num mar de dúvidas e frustrações. É uma fase necessária ao desenvolvimento, mas não pode ser uma fase estacionária.
É importante que critiquemos todas as coisas. Muito mais importante é que direcionemos essas críticas a uma finalidade maior: o ser humano, a vida. Nenhuma instituição nossa pode ser estimada acima do ser humano, da vida, nem a crítica.

Em um terceiro momento, ouvimos a voz do sistema: -Cale-se!

3. A escravidão à Lei não pode nos calar

O sistema se encarregou de calar Jesus, matando-o por sua aparente contradição à Lei.
Ao aproximar-se do final do curso no seminário, somos deparados com uma situação muito complicada. Como dissemos anteriormente, muitos de nós deixamos tudo para trás para encarar essa missão. Agora, já tendo caído de nossos tapetes mágicos e, muitos agora com uma nova família, que assumira durante o curso. Pensamos: Se enfrentar o sistema, como sustentarei minha família? Como me sustentarei? O que farei?
Tais dúvidas nos colocam numa situação em que temos de tomar sérias decisões:
Podemos fingir, inclusive para nós mesmos, que concordamos com o sistema. Nos submetemos a ele, buscando uma posição confortável e de reconhecimento. Muitos escolhem este caminho e não os culpamos. São vítimas do sistema. Eles começam a travar um discurso de que psicologia, teologia, filosofia, crítica, tudo é vão. Só a prática importa. As pessoas querem ação. Elas querem o que esperam. E o que esperam não é o que o pensar crítico pode oferecer. Querem receitas prontas. Querem, sem o saber, continuar escravas, pois isso é cômodo.
Outros preferem abandonar totalmente o sistema estabelecido, a denominação e mergulhar cada vez mais profundamente nas suas críticas, agora de solidão. Esses não são tantos quanto os outros. Eles distanciam-se totalmente da realidade, fazendo de todas as suas idéias utopias. Ficam sozinhos com as suas idéias e desprezam uma finalidade maior que sua crítica.
Uma terceira opção seria a busca do equilíbrio entre o ideal e o real, entre as disciplinas acadêmicas e a prática necessária. As pessoas que seguem por esse caminho? São pouquíssimos.
O sistema manda calar, adaptar-se a ele. A música de Chico Buarque de Holanda bem pode ser aplicada a esse contexto: “De muito gorda a porca já não anda. De muito usada a faca já não corta. Como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...Pai, afasta de mim esse cale-se”. A porca e a faca são esse sistema. Foram meios que se tornaram fins, foram formas que se tornaram essência. Uma religiosidade superficial causando a perda da relevância essencial do cristianismo...CALE-SE!...
Mataram Jesus. O cálice de Jesus foi tomado por questão de honra (não se dobrou ao sistema). Sócrates tomou o seu cálice de cicuta por questão de honra (não se dobrou ao sistema). O sistema quis calar Truman com uma tempestade. A matrix quer calar Zion. A civilização baniu Bernard Marx e Hemholtz Watson, dois personagens do Admirável mundo novo, para uma Ilha longínqua, por terem se negado a calar. O homem que volta à caverna de Platão é convidado a calar. CALE-SE!
O seminarista desabafa “como é difícil, Pai, abrir a porta. Essa palavra presa na garganta...” Como é difícil expressar nossa crítica. Principalmente quando pessoas a quem amamos (Pai, Mãe, família) já são vítimas do sistema e não aceitam nem aceitarão suas idéias. CALE-SE! O seminarista clama “Pai, afasta de mim esse Cale-se”. Esse é o nosso grito, digo, deve ser: -Afasta de nós esse CALE-SE!
Dizem que felicidade e liberdade são incompatíveis. Que sonhos não entendem de realidade. Mas é possível um equilíbrio. Libertos da escravidão à Lei, valorizemos o ser humano, a vida. Vivamos intensamente a vida. Levemos vida às pessoas. E aí nos nossos últimos dias poderemos ter lembranças de contentamento por nossas realizações no lugar de lembranças de lamento por nosso egoísmo e covardia.
Todos nós temos um potencial enorme para iniciarmos um processo revolucionário de mudanças. Um processo que traga de volta a essência do que Jesus ensinou através de suas palavras, vida e morte. Um processo que traga de volta a vida às pessoas. Vida com todas as suas instâncias (sofrimento e prazer, alegria e lamento, angústia e contentamento, certezas e dúvidas, espiritual e humano). Vida completa. Não podemos alcançar a realização plena desse processo, mas podemos iniciá-lo.
Pai, afasta de nós esse CALE-SE!
“Pois não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido”. (Atos 4:20)

Mensagem no culto-capela do STBNB em 23/10/2003

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