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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Matando Deus para que Ele viva

É muito comum ouvirmos no meio evangélico a apologia acerca da necessidade de crer em Deus, ou seja, em sua existência. Muitos de nós, para não dizer a maioria, cremos porque nos foi apresentado como algo necessário para alcançarmos um benefício especial, ou seja, cremos por conveniência. Quero defender aqui, não a necessidade de crer na existência de Deus, mas a necessidade de duvidar, não crer nessa existência (não me refiro à existência absoluta de Deus, mas à existência ofuscada pelos nossos pré-conceitos, ou seja, livrar-se da nossa idéia atual sobre Deus), claro que metodicamente, para crescermos rumo a uma fé mais genuína, mais firme, como uma casa construída sobre a rocha. Afinal, o que é crer em Deus? Aceitar cegamente o que nos é pregado? A fé em Deus precisa ser ininteligível? Acredito que a expressão “pela fé”, tão usada por nós, não tem sido muito bem empregada em nossos dias, como também não foi em outras épocas. Essa expressão não pode justificar uma assimilação de valores meramente místicos, descartando todo e qualquer uso da razão a fim de identificar e conhecer Deus, alienando a fé que precisaria ser firme e segura.
A fé firme acerca da existência de Deus, da qual estou falando, penso podermos alcançar através de um ceticismo metódico, como podemos notar em Descartes1, que tem algo a nos ensinar em matéria de obtenção de conhecimento bem fundamentado e convicto. Livrar-se ao máximo da visão atual instalada em nós acerca de Deus é indispensável nessa busca pela fé genuína. Temos como exemplo a declaração de Paul Tillich (em referência à obra “Assim falou Zaratustra”, de Nietzsche, quando este diz “Deus está morto”) de que o seu conceito tradicional de Deus estava realmente morto.2 Em que se fundamenta a imagem que temos atualmente de Deus? Se Deus se mostrasse de forma concreta a cada um de nós, poderíamos ter um perfil mais confiável, mas ninguém jamais viu Deus de forma concreta. O problema, com o qual nos deparamos, é que o homem sente uma necessidade profunda de deduzir o que ele não pode explicar racionalmente. Daí alguns defenderem que Deus não criou o homem à sua imagem e semelhança, mas foi o homem quem criou Deus à sua imagem e semelhança. Apoiamos todo o nosso conhecimento sobre Deus na sua revelação narrada nas “Escrituras Sagradas”. A revelação de Deus é o meio que nos possibilita conhecer acerca de si. As Escrituras são o instrumento através do qual podemos receber essa revelação (digo isso baseado em nossa “tradição teológica”, já que esse texto não pretende incentivar-nos a libertarmo-nos dos pré conceitos em relação às Escrituras e sim a Deus).
Podemos notar nas Escrituras uma evolução no que diz respeito a essa revelação. O Deus do Antigo Testamento, entre outros feitos, ordena ao “povo escolhido” matar outros povos, no sentido de possuir as terras destes, ou seja, matar para possuir terras alheias. No Novo Testamento, esse mesmo Deus ensina a amar até os inimigos. Deus não pode mudar, pois uma mudança significaria que algo outrora estava errado e foi preciso um conserto, o que caracterizaria um ser imperfeito, anulando sua posição de Deus. Logo, se ele não mudou, os homens é que o perceberam diferente em diversas épocas e momentos, ou seja, o agente passivo da revelação de uma época tem uma percepção divina aquém dos de épocas posteriores. Nesse caso, a pergunta é: para onde aponta a linha de evolução da revelação de Deus ao homem? E aqui apresento duas opções a serem pensadas. 1. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para o futuro intermitentemente. Isso implicaria dizer que na época de Jesus a visão de Deus era bem mais próxima do real do que na época de Abraão, bem como hoje essa visão está ainda mais próxima do real do que na época de Jesus, reservando ao futuro uma visão ainda mais próxima. Talvez não consigamos aceitar essa opção como resposta, pois ela anularia a condição de Jesus ser o próprio Deus encarnado. Para aceitá-la como provável precisaríamos livrar-nos da idéia tradicional a respeito de Jesus, mas isso não vem ao caso. 2. A linha de evolução da revelação de Deus ao homem aponta para Jesus. O que implicaria dizer que passado, presente e futuro devem apontar para Jesus, em matéria de evolução da revelação de Deus ao homem, ou seja, em Jesus está o máximo que podemos conhecer sobre Deus, por ser ele mesmo o próprio Deus. Fechando os olhos para a liberdade dos pré conceitos a respeito de Jesus e das Escrituras, correremos desesperados para a segunda opção. Considerando-a, então, como “a opção correta”, teríamos que sair em busca do Jesus mais original quanto for possível resgatar. Para isso precisaremos procurar Jesus por trás da interpretação, ou mesmo interpretação da interpretação daqueles que o relatam e ainda por trás de toda a tradição e contexto histórico dos escritos que possuímos3. É esse Jesus que devemos conhecer para que enxerguemos o Deus que ele aponta, ou seja, o máximo que se pode conhecer sobre Deus na dimensão em que vivemos.
No entanto, em detrimento dessa resposta, temos algumas dúvidas (metódicas) que nos ajudam a refletir mais: Será que Deus nos obrigaria a acreditar em relatos feitos por homens iguais a nós, do nascimento, vida, morte e ressurreição de um homem que também era Deus, para que pudéssemos conhecê-lo, sendo isso necessário para definir entre uma “salvação ou condenação eterna”? Se Deus é quem pregamos ser, por que amando a todos indistintamente, bem como querendo que todos sejam salvos, tornaria difícil acreditar na sua existência através do uso da mente que ele nos deu? Talvez as Escrituras não sejam a única forma de percebermos a revelação de Deus. Talvez Deus se deixe conhecer de uma forma mais natural, através de sua criação (não estou defendendo a teologia naturalista, apenas não a estou dispensando na íntegra). Podemos notar que talvez esteja nos faltando um pouco de pensamento indutivo a respeito de Deus. Limitamo-nos na vagueza do pensamento dedutivo, mergulhando num mar de dúvidas no qual poderemos nos afogar ao encher da maré.
Acredito que a precaução a ser tomada para que não nos afoguemos nesse mar de dúvidas é justamente o que tentei expor nessas poucas linhas: livrar-se de todo o pensamento pré-conceituoso sobre Deus (matá-lo) e, de um modo mais indutivo e menos místico, procurar conhecê-lo até onde for possível a nós, simples seres humanos (isso é torná-lo mais vivo dentro de nós). Como chegar a esse conhecimento? Matando Deus para que ele viva.

2º Semestre de 2001

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