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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Você estava lá! E o que te restou de valor?


Aquela manhã parecia mais fria que qualquer outra de outrora. Do mar saia um calmo congelante vento que me fazia contrair o corpo na busca de um calor qualquer que, partindo de dentro de mim, pudesse me aquecer e me dar mais alguns momentos de sono. Ouvia pássaros cantando no ritmo do bailar das ondas do mar, que soavam mais forte que em qualquer outro dia. Eram quatro da manhã e o Sol também parecia querer levantar mais cedo, pois os meus olhos, ainda fechados, sentiam uma claridade maior que a de costume, como que os convidando a se abrirem. O meu colchão aconchegante estava tão frio e desconfortável e não sentia meu cobertor, aliás, não lembro de haver deitado sem roupa, completamente nu. E apesar do frio, não ouço o condicionador de ar funcionando. Tenho agora a sensação de estar dormindo ao relento, no meio da rua, que estranho, só pode ser mais um daqueles sonhos que fazem com que a gente acorde assustado, com o coração disparado.

Os olhos não conseguem suportar mais a claridade. É melhor despertar logo desse sono. Espere, o que é isso? Estou mesmo nu e... Onde estou? Estou na rua, mas que lugar é esse? E que tanta gente é essa? Muitos ainda dormindo e todos nus. Vejo meus vizinhos: os do andar de cima, digo, dos andares de cima e dos andares de baixo, todos aqui no mesmo lugar. Ei, pessoal, acordem !!! O senhor do décimo oitavo andar vem em minha direção. O que está acontecendo aqui, quem é você? Sou o seu vizinho do andar de baixo, o décimo sétimo e não sei o que está acontecendo, o que o senhor acha? Bem, aquela grama na praia e aquelas pedras ali no mar eu conheço e são exatamente as que ficam de frente ao nosso prédio, mas onde está o prédio, aliás, onde está tudo? Ao ouvir aquele senhor me dei conta de que realmente a praia era de fato a nossa praia, e foi então que tive a certeza de que tudo era um grande pesadelo. Mas com tantos detalhes que parecia muito real.

Mais pessoas se levantavam do meio daquele amontoado de gente e, de repente, estava no meio de uma multidão desesperada e muito confusa. Muitos correram para o mar para esconder os seus corpos nus. Muitos gritavam aos prantos ao ver, quer dizer, ao não ver tudo aquilo que lhes pertencia. Não havia prédios, calçamento das ruas, na verdade não havia nem ruas, nem carros, relógios ou qualquer espécie de móveis ou qualquer coisa que significasse matéria prima modificada. Só existia matéria prima, ou seja, só natureza. E para qualquer lado que se olhasse e para todo o lugar que se pudesse ir, nenhum vestígio se poderia encontrar de qualquer produto que fosse fruto de modificação pelo trabalho humano. Uns gritavam: Precisamos comprar roupas. Outros respondiam: Mas onde? E com que dinheiro? Não se podia comprar nem com cartão de crédito ou débito porque não existia mais cartão, nem banco, e nem lojas e nem dinheiro. Logo, não haviam vendedores, pois o que haveriam de vender? Nem empregados e nem patrões, nem empresas. Não havia ricos e nem pobres. Na verdade não havia nada que pudesse indicar qualquer sinal de status, classe social, etc.

Os doutores e especialistas ficaram ainda mais perdidos. Aquele, por exemplo, tem doutorado em sistemas de segurança da informação. É só lhe apresentar uma rede de computadores de uma grande empresa que ele fará com que seja impossível a um hacker invadir o sistema. Ele mesmo criou o sistema mais complexo de criptografia que é conhecido. Mas como usar esse conhecimento específico sem as suas ferramentas essenciais? Talvez quando reinventarem a eletricidade e os computadores e as telecomunicações, se ele ainda estiver vivo e em condições de exercer a sua profissão poderá reencontrar-se.

Me aproximo novamente do senhor do ex-décimo oitavo andar do ex-prédio que eu morava. Ele está com sua família: esposa e filhos. Como é mesmo seu nome? Aparecido. E há quantos anos morava nesse prédio? Há vinte anos. Que coincidência, também morava aqui há vinte anos. Meu nome é João e vim morar aqui quando tinha vinte anos e tinha acabado de me casar. Minha esposa faleceu há dois anos e desde o acontecido tenho morado só. Isso é realmente impressionante, pois também vim morar aqui aos vinte anos quando casei com esta minha esposa. Ah, me perdoe a má educação, essa é a minha esposa Joana e esses são os meus filhos João, de cinco anos, e Mônica, que vai fazer dois anos agora no dia 25 de dezembro. 25 de Dezembro, dois anos? Então sua filha nasceu no mesmo dia da morte de minha esposa, no Natal. Tanta coisa relacionada entre nós, o seu filho tem o meu nome, mas nem sequer nos conhecíamos.

A esta altura já tinha me dado conta de que a possibilidade de tudo aquilo ser apenas um pesadelo estava totalmente descartada. A minha conversa com aquela família que tinha acabado de conhecer me fez imaginar várias situações que estariam ocorrendo simultaneamente no mundo inteiro. Imaginei os grandes poderosos do mundo, ao acordar, perceberem-se ocupando o mesmo espaço dos mendigos, as ruas, digo, o chão. Imaginei como eles se sentiriam naquela situação de igualdade, sem possuir nada que os diferenciassem daqueles outros. Falei igualdade? Na verdade quis dizer desvantagem, pois os mendigos já estão muito bem adaptados àquela vida. Com certeza eles seriam consultados por aqueles poderosos a respeito das técnicas de sobrevivência.

Há de se reparar que num momento como esse o trabalho manual é de grande valor, pois de nada adiantará qualquer conhecimento avançado de processos automatizados dado que não há qualquer tipo de automação. Camponeses que se submetiam a trabalho escravo para aumentar as riquezas de seus senhores, proprietários de enormes extensões de terra, apropriam-se das terras que tanto beberam do seu sangue e suor. Todos os trabalhadores manuais, operários, cortadores de cana-de-açúcar, abandonam a venda barata de suas forças de trabalho e passam a usar o produto do seu trabalho para o próprio sustento e para a troca por outros produzidos por seus vizinhos. Os ex-proprietários de terra e ex-patrões, desprovidos de força produtiva manual, oferecem os seus serviços como troca pelos produtos de sua necessidade.

2 comentários:

Platônidas disse...

Cara, muito alucinante este texto. Mas, tenho duas perguntas, na verdade, três:
1- O texto está incompleto?
2- De onde tu tirou essa idéia viajada?
3- Cadê o "Mente Latente" dentre os blogs da coluna da esquerda? =P

Bruno Montarroyos disse...

1- Sim! É um texto que comecei em 2004 e um dia vou continuar. kkkkk. Resolvi postar caso isso nunca aconteça.
2- Das minhas loucuras. Tu num sabe !
3- Está aí.