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terça-feira, 20 de abril de 2010

O Sagrado e o Profano

Ter uma identidade cristã não nos pode impedir de fazer parcerias com outras identidades. Esse fato está diretamente relacionado à percepção de sagrado e profano e representa um desafio. Que é um desafio não só individual, mas também nessa questão da religião em si. Muitos dos conflitos que temos observado nos dias de hoje têm a ver com essa noção de sagrado e do profano, porque onde há conflito é exatamente nessa região do sagrado, porque no profano todos se unem.

Gostaria de trazer à nossa reflexão um desafio não de dessacralizar o sagrado nem o espaço sagrado, mas talvez de tentar sacralizar o profano. Quando falamos de ecumenismo, de diálogo ecumênico, do respeito pelo outro, não só no discurso, mas o respeito pelo outro na prática mesmo, essa dicotomia entre o espiritual e o social é um desafio. Ser cristão não significa considerar como opostos esses dois pontos. Ser cristão é ser seguidor de Cristo. Vemos no exemplo de Cristo alguém que é altamente ecumênico. Alguém que compartilha de uma parceria e de atividades com qualquer tipo de pessoa.

A Bíblia não tem esses limites, essa separação radical entre o sagrado e o profano. No Antigo Testamento é possível saber sobre um rei, Ciro, que é um rei persa, politeísta, sendo chamado de enviado de Deus para libertar o povo de Israel. Em nenhum momento ele deixou de ser persa, ou politeísta, mas é apresentado no próprio documento, na própria Bíblia como alguém que está libertando o povo de Deus, como alguém importante, uma figura importante naquele momento aos olhos do(s) autor(es) do texto.

Na atividade de Cristo no Novo Testamento também podemos observar o mesmo pensamento. Quando proponho sacralizar o espaço profano como uma possibilidade de fazer ecumenismo, não estou propondo uma hegemonia desses valores. O desafio, falo agora como teólogo, é o de enxergar no Cristo uma figura inclusiva. Um ser que não exclui. E comparar isso com a religião, em sua prática mais comumente observada, com sua tendência totalmente exclusivista.

Pensemos em uma pessoa que freqüenta com devoção certo espaço sagrado. Esse espaço sagrado tem obviamente as suas reservas como qualquer espaço sagrado. Há elementos do cotidiano da vida que não cabem nesse espaço. É comum observar uma dicotomia radical entre o sagrado e o profano, principalmente nas comunidades neo-pentescostais. Se uma pessoa se sente “perto de Deus” apenas nesse espaço sagrado ela manifestará uma tendência natural de carregar esse espaço sagrado dentro de si. Isso lhe trará a segurança de proximidade do seu Deus onde quer que essa pessoa esteja. Essa expansão do espaço sagrado do seu limite físico-geográfico para dentro do ser dessa pessoa poderá resultar em um indivíduo alienado de sua própria realidade. Digamos que essa segurança que me traz o ambiente sagrado me transforma em um Eu-Sagrado. Assim, mesmo fora daquele espaço sagrado específico eu estarei ligado a ele, pois este estará dentro de mim. Esse Eu-Sagrado ou Eu-Separado se confronta com o universo fora do espaço sagrado como um “outro incomungável”. É exatamente aí que o simbólico do meu universo sagrado torna-se diabólico, pois no lugar de expressar o poder de união, provoca separação, exclusivismo. Saindo daquele espaço sagrado eu sou uma pessoa que restrinjo toda a minha relação. E até o engajamento social muitas vezes não é visto como algo importante, porque o sagrado dentro de mim diz: “O mundo está se acabando mesmo. Jesus vai voltar e não adianta fazer mais nada”. Esse é um discurso que existe em vários grupos evangélicos.

Quando falo em sacralizar o espaço profano é exatamente isso que quero dizer: enxergar o outro não como alguém que está representando uma religião diferente que vai conflitar com a minha, mas enxergar, até no não religioso, o tipo, o modelo nas ações, nas atividades, na própria forma de ser, do que entendemos ser o arquétipo “Cristo”. Aquele que está junto com os mais necessitados, aquele que se preocupa com isso, aquele respeita o outro, o Cristo como esse exemplo de humanidade.

Sacralizar o profano é enxergar a espiritualidade e o mais alto grau de espiritualidade na própria humanidade. Este é o grande desafio da sacralização do profano de que falo. É saber a dimensão da espiritualidade, porque espiritualidade tão somente é humanidade. E o mais alto grau de espiritualidade que um ser humano pode chegar é ser humano. Espiritualidade é humanidade. Precisamos nos livrar dessa dicotomia entre espiritualidade e humanidade. Quando a Igreja passa a enxergar isso, a dimensão da sua espiritualidade é amadurecida.

Temos percebido experiências muito boas e importantes nessa área. Pessoas que antes enxergavam a coisa de forma dicotômica e começam a enxergar “sexualidade é espiritualidade”, uma boa relação com outra espiritualidade também. Uma piada é espiritualidade. Um momento informal é espiritualidade. Então, esse espaço geralmente considerado profano é também espaço espiritual. Existe resistência? Claro que sim. Mas por outro lado também há pessoas que superam aquela concepção medieval de separação de tudo, aquela concepção de inferno, terra e céu. Esta é de fato uma concepção medieval. Essas pessoas extrapolam isso aí e começam a enxergar na atividade do Cristo que elas acreditam e no cristianismo esse modelo de humanidade. Um Cristo que se mistura com tudo que é considerado profano e enfrenta sérios problemas em sua época também com isso. Com os religiosos, principalmente. O Cristo que pelos religiosos da época não é considerado como um representante da religiosidade, mas como alguém que conspira contra ela, exatamente por demonstrar isto: espiritualidade é humanidade.

É importante separarmos o termo “profano” (que tenho empregado para me referir a tudo o que não é comumente aceito como sagrado) da idéia de mal. Não estou propondo aqui considerar que o mal é também sagrado. Digo o mal de verdade. As coisas que são de fato manifestações maléficas: homicídios, injustiça, desrespeito, ingratidão, etc. Sobre essas coisas é possível observar certo consenso de que são de fato más. É verdade que muitas coisas boas foram taxadas como más por alguma vivência doentia da religião. Tem um versículo na Bíblia que eu acho bem interessante lá em Eclesiastes, que diz: “Deus fez as coisas simples e boas, mas nós complicamos tudo”. Há muitas coisas consideradas como “mal” na religião que fomos nós que decidimos perceber como mal. Mas boa parte do que a religião considera mal foi de acordo com conceitos criados por nós. É interessante pensarmos nisso.

Explico novamente para que não haja confusão: transformar, sacralizar o profano não significa fazer, por exemplo, a intervenção violenta, que é feita em alguns grupos. Você chegar em uma comunidade indígena e considerar aquilo como profano e dizer “agora vou sacralizar esse espaço profano. Vou torná-los da minha religião”. Não é isso. É um processo relacionado mais com uma transformação da minha percepção das coisas como elas já são e não um processo de mudar pessoas ou realidades para que se adéqüem à minha percepção. É saber que as coisas simples da vida, as coisas mais relacionadas com o que nós conhecemos como humanidade, são também espirituais.

Participo de uma comunidade, a Primeira Igreja Batista em Bultrins, em Olinda. Sou um dos pastores lá. Experimentamos nessa comunidade uma riqueza na forma de viver a diversidade. Uma Igreja sem portas e sem janelas, literalmente também. Apesar de ser uma Igreja batista, da convenção batista, essa coisa toda histórica, mas um templo sem portas, sem janelas, onde comunidade e igreja se misturam, onde não há uma separação acentuada entre uma e outra. Lá em Bultrins, na igreja, há gente que se veste formalmente como é mais comum em Igreja e tem gente que vai de bermuda e sandália e um respeita o outro. Eu estranhei no momento em que eu cheguei lá, porque estava acostumado com uma outra realidade. Estranhei coisas deste tipo: um espaço onde um ancião participa cantando uma música bem antiga e um adolescente participa cantando um rock pesado ou uma música popular qualquer e um respeitar o outro. E além de se respeitarem, admirarem o que o outro faz.


Ecumenismo não se impõe. Não é algo que você estabelece simplesmente, diz para o pessoal: “Olha, vamos ser ecumênicos e respeitar as diferenças”. É algo que se vive. Quando eu cheguei lá nessa comunidade, como pastor já, estranhei no começo, mas com a convivência você se acostuma de uma forma tal que tudo se torna natural. Choca outras pessoas quem vêm conhecer, mas para você que já vive a realidade, tudo é natural. Então, se nós pensarmos nisso como uma postura mesmo, a partir de nós, essa questão do respeito pelo outro, do conviver bem, do caminhar junto, de se interessar pelas diferenças do outro e buscar admirar, inclusive. Admirar o que o outro tem diferente de mim é saber que nós caminhamos juntos, e se ele insiste em ser diferente é porque essa diferença é uma riqueza para ele. E se é riqueza para ele é riqueza para mim também. Não quer dizer que eu vá perder minha identidade. Não perco a minha identidade quando me admiro com a identidade do outro, pelo contrário, há uma troca nessa relação. E eu aprendo. Dessa forma ninguém é dono da verdade e outro aprende também. Isso não significa que eu vou trocar todos os meus valores e a minha fé pela fé do outro, mas quer dizer que nós podemos caminhar juntos, superar isso, acreditando sempre que na diferença do outro é onde mora a sua riqueza e o meu aprendizado.

* Extraído de Palestra em evento promovido pela Fundação Joaquim Nabuco.

3 comentários:

Andrea disse...

Excelente texto! Parabéns!!!!

João Victor disse...

Parabéns, Bruno! Não há uma verdade única. Não há um absolutismo nesta vida.

Confiram: www.mentelatente.blogspot.com

Anônimo disse...

Pois é Bruno, como diria o nosso querido filósofo e teólogo Frei Betto “o amor consiste em, não fazer das diferenças, divergências”. Realmente, daqui que o povo considerado “cristão” tome iniciativa de tentar pelo menos imitar a “humanidade espiritual” de Jesus , presenciaremos gerações sendo alienadas por homens denominados “de Deus” que só se preocupam com sua “espiritualidade financeira” e transformam “boas pessoas” em “bobos sectários” prejudicando assim nossa tentativa de por em prática o ecumenismo (não religioso, mas universal) desejado pelas pessoas equilibradas. Parabéns, ótimo texto.GULIVER