Bem-vindo ao nosso Blog

Esse espaço é seu e suas opiniões e comentários são essenciais para que possamos torná-lo o mais útil e agradável possível. Obrigado! <<<(((||)))>>> "Enfim, é disso de que trata o blog, de assuntos variados que traduzam com palavras simples e críticas esses caminhos e descaminhos que a humanidade percorre na estrada da vida, expressos através de um desejo profundo e intimamente meu: Quero ser mais humano: menos hipocrisia, menos espiritualidade alienante, menos moralidade vazia, muito mais HUMANO."

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sobre a Liberdade em Mill - Parte 1*

A OPINIÃO PÚBLICA

A humanidade parece ter adquirido uma tendência de afastar-se das mudanças. É muito lógico pensar que, enquanto semi-nômade, a humanidade possuía uma maior tolerância ao desconhecido, ao diferente. As mudanças eram constantes e era preciso estar aberto para recebê-las, pois dessa flexibilidade de lhe dar com as mudanças dependia a própria sobrevivência. Ao abandonar uma região esgotada de recursos para iniciar nova jornada à procura de uma outra fonte da vida, era preciso estar preparado para adaptar-se a condições totalmente diferentes. Nova vegetação serviria de alimento, diferentes tipos de animais, novas formas de acesso à água, e de uma água também diferente. A mudança geográfica exigia, com certeza, mudança de comportamento, de costumes. E a reação a essas mudanças não poderiam ser tão hostis quanto no mundo atual. Não havia o direito à propriedade já que nem a idéia de propriedade seria possível de conceber. Nem sobre a terra, nem sobre os frutos da terra, nem sobre os animais ou mesmo sobre outros indivíduos. Entenda-se aqui a idéia de propriedade sobre outros indivíduos tanto na realidade da escravidão (voluntária ou não), como no estabelecimento da união civil (o que garantia, e ainda garante em certa medida, às partes um tipo de propriedade sobre o outro), principalmente a figura da mulher como propriedade do homem.

Após o aprendizado do sedentarismo, com a possibilidade do armazenamento de água, da criação de animais e da agricultura, os costumes e regras eram naturalmente cristalizados de igual modo. A dinâmica do movimento cedia espaço para um modo de vida mais estável, com a necessidade de leis e costumes igualmente estáveis. Aos poucos, as ameaças à estabilidade teriam um impacto cada vez maior na reação dos indivíduos. A questão da propriedade e o estabelecimento da sectarização familiar introduzem no seio da sociedade a necessidade de cada pessoa de uma maior proteção contra as liberdades individuais dos outros. Necessidade de impor limites à liberdade alheia como forma de proteger os bens sobre os quais se é proprietário. Dessa nova realidade surgiriam leis e costumes em nada comparados a quaisquer outras leis e costumes antes disso.

No campo da religião, uma infinidade de mitos foi se fundindo, formando grandes religiões e contribuindo para que costumes fossem cristalizados sob a égide da “vontade divina”. Tentativas de introduzir mudanças a leis e costumes estabelecidos foram, geralmente, severamente punidas ao longo da história da humanidade e a religião foi uma arma poderosa para conquistar o consentimento do povo nas condenações.

As acusações de personagens como Sócrates e do próprio Jesus estavam alicerçadas na quebra de costumes estabelecidos, geralmente, pela religião dominante. Imoralidade, irreligiosidade (impiedade), blasfêmia e outras são as acusações que conduziam à morte os infratores.

É normal que ao estudar o passado, conhecendo a história, coloquemos-nos ideologicamente ao lado daqueles que ousaram levar as suas liberdades individuais às últimas conseqüências; daqueles que conseguiram enxergar detalhes subliminares ao senso comum e se dispuseram, ao custo da própria vida, a expressar suas opiniões e direcionar a sua luta àquela realidade que considerava injusta; Afinal, é fácil defender um conceito já estabelecido. O difícil é por em xeque esse conceito estabelecido em decorrência de um pensamento novo. Não é fácil considerar a possibilidade de uma certeza nossa estar equivocada. Como bem o diz Mill:

"Pois que, embora cada um saiba bem, no seu íntimo, que é falível, poucos acham necessário tomar quaisquer precauções contra a própria falibilidade, ou admitir que alguma opinião de que estejam certos, possa ser um exemplar do erro a que se reconhecem expostos".

O conhecimento da própria história é muitas vezes o que falta ao senso comum, como um par de óculos que ajudaria a evitar a intolerância diante de reações às novas necessidades provocadas pelas mudanças da humanidade. A respeito das regras e costumes que regem a vida social, pois:

"Não a resolveram do mesmo modo quaisquer duas eras, e ainda menos quaisquer dois países; e a decisão de uma era ou de um país causa espanto a outra era ou outro país. No entanto, as pessoas de uma dada era e de um dado país suspeitam tanto que haja qualquer dificuldade em relação a essa questão como se se tratasse de um assunto sobre o qual todos tivessem sempre concordado."

Quando se tem claro na mente as mudanças ocorridas na sociedade, suas leis, costumes, crendices e tantos outros fatores da vida social, não é tão difícil manter a mente aberta para a possibilidade e necessidade de novas mudanças. Mas a realidade demonstra outra situação. É o interesse das classes dominantes que estabelece as normas que serão seguidas fielmente pela massa da população. Os conceitos se cristalizam e a repetição se torna a regra maior. Aquilo que a sociedade ou a elite passa a preferir, bem como aquilo a que tem aversão, ou seja, os seus gostos determinam as normas que serão observadas por todos. E quem se negar a seguir as normas estará sujeito às penalidades, quer sejam as estabelecidas em lei ou mesmo as penalidades das opiniões das pessoas.

Segundo Mill, “Onde haja uma classe dominante, uma grande parte da moralidade nacional emana dos seus interesses de classe e dos seus sentimentos de superioridade de classe”.

A uniformidade criada pela opinião pública se transforma em um grande obstáculo ao exercício de qualquer individualidade que não seja consoante com a maioria. Essa opinião pública recebe a influência de diversos tipos de atores, aos quais chamamos “formadores de opinião”. Professores, políticos, líderes religiosos, e, de uma forma crescente, os veículos de comunicação, assumem esse papel que é formar a opinião das pessoas. Uma expressão muito usada para caracterizar esse fator é “cultura de massa”.

* Reflexões a partir da obra Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill

Nenhum comentário: