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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Como uma criança

“Quem não consegue enxergar o Reino de  Deus como uma criança consegue, então vai viver a vida inteira sem tê-lo encontrado”.
Lucas 18.17

Eu estava voltando do sertão de Alagoas. Tinha ido a um município muito pobre, chamado Inhapi, a trabalho da Visão Mundial, e estava agora na rodoviária de Maceió.

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Uma cena ali, já no lugar onde esperávamos o ônibus para Recife, seria uma das lições mais ricas de minha vida. Uma lição dada por duas pequenas crianças. Deviam ter uns seis anos.

Os personagens da minha cena, deixe-me dizer, eram os seguintes: um senhor de idade (que eu imaginei ser o avô das crianças), uma mulher adulta (que eu imaginei ser a mãe) e as duas crianças.

Agora o cenário: Vocês já sabem que estávamos já no local onde os ônibus param para que possamos entrar, mas ainda falta… Lembro-me de um rapaz, metido a político, ou com pretensão de se candidatar, devia ter os seus 20 anos, no máximo, conversando com um homem mais maduro sobre o seu hábito (do jovem mesmo viu) de fumar cachimbo. Trazia um belo cachimbo na mão, devidamente abastecido e funcionando como uma chaminé a plena atividade. Esse rapaz é tão importante para a nossa cena que não o incluí como personagem, mas como cenário, portanto tratem logo de esquecê-lo porque nem sei o motivo de tê-lo mencionado. Talvez vocês consigam ir além e descobrir o meu motivo inconsciente para isso. Voltemos ao cenário, à parte que interessa dele, aquelas trouxas imensas que, pela fisionomia dos dois adultos, percebi se tratar de todas as coisas que aquela família possuía.

Tanto a mulher quanto o velhinho pareciam se encontrar no pior dia de suas vidas. Suas faces extremamente abatidas, ainda chorosas. Carregavam tanta ansiedade pelo momento que parece ter enchido todo aquele ambiente de tristeza. Eles provavelmente estavam sem qualquer perspectiva de abrigo e sustento. Não houveram palavras nessa cena, palavras que pudessem comprovar todas as minhas desconfianças. Apenas as expressões e o que os meus sentidos podiam perceber.

Mas algo em toda aquela tristeza parecia destoar completamente. As suas crianças, um casal, pareciam estar no melhor dia de suas vidas. Elas faziam de brinquedos os objetos contidos naquelas trouxas. Rodeavam aqueles pertences, correndo uma atrás da outra. Riam, davam gargalhadas que pareciam desejar que aquele ambiente cinzento ganhasse vida e cores, através da magia dos seus olhares.

Fiquei, então, a pensar. Eram quatro pessoas passando pela mesma situação. Os dois adultos estavam reagindo de forma totalmente oposta daquelas duas crianças. Calma, não precisa dizer, sei que você pensou logo nisso: Os dois adultos estavam conscientes da realidade e as crianças não. Pensei nisso durante o bailar dos meus pensamentos. Mas essa é a forma automática de nós pensarmos. Mas resolvi me atrever a enxergar de outra forma. Quem disse que as crianças não estavam conscientes? Crianças podem não carregar sobre as suas costas o peso do futuro, das preocupações do amanhã, mas elas enxergam como ninguém a realidade presente. Elas tinham o avô pertinho, a mãe, e ainda um monte de coisas legais embrulhadas em lençóis, coisas para brincar, estavam em um lugar diferente, com uma plateia diferente para rir das suas brincadeiras. Mas os adultos estavam com os pensamentos em algum momento do futuro, algum lugar do futuro. E quando chegasse esse momento e esse lugar, eles estariam com os seus pensamentos em outro momento e lugar de um novo futuro. Nós adultos não sabemos viver o presente, estamos sempre esquecidos da impossibilidade de hoje poder viver o amanhã. O único momento que podemos viver, ser felizes, aproveitar a vida, é o agora. Tudo o que temos de bom para lembrar são os momentos do passado em que conseguimos viver o agora sem o peso das preocupações com o que viria no dia de amanhã.

Os olhos das crianças são mágicos, encantados, e precisamos de um pouco dessa magia em nossos olhos. Elas entendem melhor sobre a beleza que escrevi em meu texto Penumbra. Não esperam o próximo produto desejado chegar para serem felizes. Não esperam ocupar uma melhor posição para se sentirem bem. Até desejam coisas e do jeito delas lutam para consegui-las, mas jamais se esquecem de viver o momento irrecuperável do agora, da melhor forma.

P.S. A foto acima, tirei hoje pela manhã na Estação Central de Metrô do Recife. Uma criança e um adulto de mãos dadas e olhando em sentido contrário. Enquanto o adulto está com toda a sua atenção voltada para alguns pequenos balões que se vão, a criança registra a passagem de um imenso e belo dirigível.

2 comentários:

Anísia Neta disse...

O presente é a travessia. É no caminho que está a vida, a felicidade... É na estrada que se faz o caminhante!
"Não importa a partida, nem a chegada, mas a travessia". G. Rosa.
"Atraversiamo"...

Bruno Montarroyos disse...

É isso, Anísia, exatamente isso, o caminho!