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terça-feira, 15 de março de 2011

Sobre a Liberdade em Mill - Parte 4*

A LIBERDADE DE PENSAMENTO

Quando nos deparamos com a expressão liberdade de pensamento é muito comum que a imaginemos como uma qualidade inerente a todos os seres humanos, sem exceção: - cada um é livre para pensar o que quiser. Mas será que poderíamos realmente dizer que todas as pessoas são livres para pensar? Existe quem tenha maior ou menor liberdade de pensamento? É possível criar condições que tornem as pessoas mais ou menos livres para pensar?

Se “[...] o mundo, para cada indivíduo, significa aquela parte do mundo com a qual tem mantido contato”, (MILL, 1997, p.24) e se o nosso pensamento precisa partir daquilo que conhecemos e experimentamos, então poderíamos falar que é mais livre quem conhece mais. Lembremos do mito da caverna em Platão. Aqueles que só conheciam o fundo da caverna e as sombras projetadas sobre ele, eram livres para pensar sobre as relações humanas, por exemplo? Uma criança que nasce e se desenvolve em um contexto de extrema e constante violência é livre para pensar em amor ao próximo? Aqueles que não tiveram acesso a algum tipo de educação ou mesmo ao aprendizado da leitura são livres para interpretar as estruturas complexas que regem a nossa sociedade? A classe social de um indivíduo ou o grupo ao qual pertença determina a sua opinião ou é a sua opinião que determina a sua classe ou grupo? Talvez fosse mais correto dizermos: - cada um pensa o que quer dentro do que pode, ou seja, dentro daquilo que conhece. É difícil determinar em que grau o contexto forma a opinião do indivíduo ou os indivíduos formam a opinião do contexto, mas liberdade só será de fato liberdade se houver autonomia suficiente para exercê-la.

É de fundamental importância termos a consciência de que “tem havido, e poderá haver, grandes pensadores individuais num ambiente de escravidão mental. Mas nunca houve, nem alguma vez haverá, nesse ambiente, um povo intelectualmente ativo.” (MILL, 1997, p.39) Para que houvesse liberdade de pensamento para todos, seria necessário aquele contexto já falado de variedade de situação. Se as pessoas, em seu desenvolvimento desde a infância, se deparam com diferentes formas de expressão do pensamento, então a percepção delas se expande. E isso é também um processo de educação. Mesmo um analfabeto, em um ambiente de diversidade, poderá formular juízo crítico sobre as coisas e construir o seu pensamento de forma adequada. A variedade de situação oferece escolhas aos indivíduos. Estes podem confrontar os argumentos de cada situação diversa e formular o seu próprio juízo, síntese dos conhecimentos e experiências adquiridas da heterogeneidade.

Da consciência e experiência da diversidade é desenvolvida naturalmente a tolerância, inclusive religiosa. Aliás, é já a tolerância que permite a existência da diversidade. Ela quem permite que a diversidade permaneça e se desenvolva, assim como ela também é desenvolvida pela diversidade.

A tolerância é que cria a abertura para ouvir o outro. Para compreender que ao fazerem as suas escolhas, as pessoas tem as suas razões. E as motivações que regem as ações das pessoas são distintas. Cada pessoa realiza as suas escolhas a partir de suas próprias experiências, que as justificam. “[...] as mesmas causas que fizeram dele um membro da Igreja Anglicana em Londres poderiam ter feito dele um budista ou seguidor de Confúcio em Pequim”. (MILL, 1997, p.24)

Ao se proporcionar um ambiente fértil ao desenvolvimento das individualidades faz-se uma importante contribuição para que a existência humana seja mais rica. Muito se diz que a riqueza mora na diferença e é verdade. Se alguém a quem amamos se mantém diferente, mesmo nos conhecendo e sabendo que pensamos diferente, é porque essa diferença é muito importante para essa pessoa. Essa diferença que o outro insiste em carregar é o seu tesouro, a sua riqueza. E nessa diferença pode estar um importante aprendizado para o outro. “Proporcionalmente ao desenvolvimento da sua individualidade, cada pessoa torna-se mais valiosa para si própria e é, assim, capaz de ser mais valiosa para os outros. A sua existência é mais rica e quando existe mais vida nas unidades também há mais vida na massa que estas compõem”. (MILL, 1997, p.66)

A verdade é amiga do pensamento crítico e livre. Proporcionar um ambiente em que [... se] possa questionar e criticar livremente é o mesmo que permitir [...] o acesso à verdade. A dúvida e crítica adequada de um conceito geram a possibilidade de uma maior segurança, clareza e identificação da essência de tal conceito. (MONTARROYOS, 2003, 67)


* Reflexões a partir da obra Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill

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