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terça-feira, 22 de março de 2011

Janaína, acorda!

Desde muito antes de ela vir ao mundo, a sua mãe já circulava entre a minha família materna, tornando-se praticamente uma integrante da família. Ela tinha alguns irmãos, alguns que moravam com a sua mãe e mais um ou outro espalhado nesse mundo. Não conheci os seus irmãos, mas ela foi, pelo menos por algum tempo, a minha irmã mais nova.

- Janaína, acorda, hora de se arrumar para ir à escola, dizia a minha mãe. E dava-lhe o banho, a comida, as roupas e a conduzia à escola... Mas isso foi já na segunda fase. Houve uma primeira, ela ainda muito pequena para ir à escola, quase um bebê (uns dois anos, acho). E esteve conosco até uns quatro anos de vida. Resolveu voltar para a sua mãe e retornou para nós um ano depois, passando mais uns dois anos conosco.

Teria hoje pouco mais de vinte anos, se aquele infeliz não tivesse movido o seu dedo indicador para puxar o gatilho que lhe fechou aqueles olhos grandes e carentes. As minhas últimas lembranças, ela ainda com os seus sete anos, são de nós dois balançando juntos na rede, no corredor da nossa casa. Ela me olhava com aquele olhar satisfeito, mas ao mesmo tempo carente e guardião de um passado sofredor. Sim, era mais uma vítima da extrema pobreza, que não se acostumaria a viver numa casa com regras, horas, compromissos. Ela queria voar, queria a rua, liberdade, talvez para fugir, para que o movimento de ir desse a impressão de que o passado sofredor estaria ficando mais distante, para trás.

Sabe o que eu desejaria para o infeliz que lhe tirou a vida e a de outras quatro pessoas, deixando os corpos dentro daquela van? Não, não desejaria que passasse dez anos sendo estuprado e vivendo como um animal em uma penitenciária para sair ainda mais infeliz. Não desejaria que fosse torturado até morrer. Desejaria apenas que tivesse sido amado, desde a sua concepção que tivesse sido amado. Que tivesse encontrado em sua vida pessoas que o vissem como gente e o fizessem se sentir amado. Sim, era tudo o que eu desejaria para aquele infeliz: outro passado. Duvido que alguém que consiga aproximar uma arma da cabeça de outra pessoa e apertar um gatilho, tirando-lhe a vida, seja feliz e amado.

Se o passado daquele infeliz tivesse sido mais feliz, talvez aquele gatilho não tivesse sido acionado. Talvez nem haveria gatilho. Ou melhor, talvez houvessem outros gatilhos. O gatilho da solidariedade, da sensibilidade, do amor, da paz, da vida.

Existem homens poderosos nesse mundo. Só precisam de um dedo para tirar uma vida ou milhares delas. Quem quiser me chame de idealista, mas não gosto de armas. Nenhuma delas. Não gosto de quaisquer forças armadas. Acredito nas forças desarmadas. Cito um trecho da antiga música “o último julgamento”, de Chitãozinho e Xororó, quando Deus diz para o homem: “o avião que você inventou foi para levar a paz e a esperança, não para matar o seu irmão e nem para jogar bombas nas minhas crianças...”

Ainda posso ouvir a voz de minha mãe: - Janaína, acorda, hora de ir à escola. Mas ela já não acorda há muitos anos. Acordemos nós. Acordemos para refletir sobre cada ação ou inação nossa. Promove violência ou paz? Amor ou ódio? “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz...”

2 comentários:

João Victor disse...

Poucas palavras, poucos detalhes, ainda assim você consegue passar ao leitor os sentimentos que sentia por sua "irmã". Parabéns pelo texto!

Giuseppe Pietrini disse...

"In the practice of tolerance, one's enemy is the best teacher", Dalai Lama.

Grande Bruno, desejar que aquele que o mal praticou tivesse sido amado é superiormente divino, passe a redundância mas foi só para reforçar a ideia. Creio que já conhecia a história de Janaína através de sua tia Sylvia.

Abraço
Zeca, aka Giuseppe