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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Política, questão de fé*


Por Bruno Montarroyos

Quem dirige automóvel sabe. Por mais habilidade que se tenha e por mais que se respeite as leis de trânsito, dirigir não se resume a isto. É preciso confiar que os outros também respeitarão as mesmas leis. Se não confiássemos minimamente nos outros motoristas, não dirigiríamos. Só nos sentimos seguros para trafegar nas ruas, porque acreditamos que os outros não orientarão os seus carros em nossa direção, causando uma colisão, por exemplo. Não daria para dirigir prestando atenção a tudo o que se deve e ainda no comportamento de cada um dos outros motoristas ao volante. Dirigir automóvel é uma questão de fé.

Sou teólogo de formação e a fé é um tema que faz parte do meu universo. Desde a minha entrada acadêmica na Ciência Política como um total ignorante nesta área (continuo me sentindo um ignorante), tenho me deparado com uma realidade: Política também é uma questão de fé, assim como a neutralidade científica na academia. Mas antes disso, vou voltar um pouco e contar a minha experiência no Centro de Mídia Independente.

Sempre fui um sonhador. Desde que fiz uma opção na teologia - opção pelos pobres - tenho dedicado parte significativa do meu tempo e esforços a estudar melhor as causas das injustiças e desigualdades. Percebi que uma educação deficiente aliada a uma concentração de poder no principal meio que informa a população (a TV), era um forte instrumento de opressão, que trabalhava, à semelhança dos sacerdotes bíblicos, em favor do poder econômico. Este último detém também o poder político (direta ou indiretamente), alienando a massa em favor de uma afluência cada vez maior da riqueza de um povo a uma minoria abastada.

Pensei: deveria existir uma mídia independente e buscando na internet cheguei ao Centro de Mídia Independente, onde trabalhei um tempo no coletivo Recife, como voluntário. Assim comecei a ver mais de perto como uma notícia se transforma, da realidade até o noticiário da TV e dos jornais escritos. Através do CMI conheci muita gente, militantes, cineastas, gente comprometida com um mundo melhor, que dá o próprio sangue para isso. Convivi de perto com o MST. A essa altura, minha teologia e vida estavam comprometidas com o pensamento de esquerda, o da heresia, já que quem tem o direito de colocar os rótulos é o poder econômico.

Isso me levou ao Mestrado em Ciência Política. Essa ânsia de conhecer melhor as raízes das desigualdades. Mas me deparei com a realidade de que política é também questão de fé.

Por mais que tenhamos o zelo de nos informar de todos os ângulos sob os quais uma notícia é veiculada. Refletir, sem presunção de ser portador da verdade, os argumentos disponíveis em cada "time" apaixonado por suas próprias ideologias. Percebo que em algum momento será preciso fazer escolhas. Escolher que fontes julgarei mais confiáveis, sejam elas pessoais ou institucionais. Isto porque as nossas limitações não nos permitem a onisciência ou a onipresença, de forma que sempre dependeremos de informações de terceiros. E parte significativa dessas informações trafegam por ambientes restritos a poucos terceiros. Informações que jamais chegarão a público, inclusive. E aí haverá terceiros bem estudados, tentando juntar as peças e tecer as suas interpretações. Haverá também terceiros pagos para usar os títulos de suas credibilidades em declarações de informações pré-acordadas para o atendimento de interesses específicos. E como há terceiros para todos os lados, precisaremos, em algum momento, optar quais terceiros nos transmitem mais confiança.

Quando lembro de John Stuart Mill, em sua obra sobre a liberdade, percebo que há muito o que aprendermos. Ele diz que todo mundo se reconhece falho, mas que o difícil é reconhecer que uma certeza minha de hoje possa ser um exemplo dessa falibilidade. Reconheço-me falho tão somente pelo meu passado, pelo que já se tornou insustentável permanecer como certeza. Dificilmente pensamos na possibilidade da falibilidade em uma certeza atual. E isso limita a nossa capacidade de ouvir, de verdade, de querer aprender com o diferente, de buscar no diferente algo que possa completar, contrariar ou mesmo reforçar uma certeza minha. E isso empobrece o nosso pensar. Chamar de imbecil, idiota, ingênuo, etc, o diferente, limita a nossa capacidade de considerar outros horizontes e considerar a nossa já reconhecida falibilidade.

Saber que política é também questão de fé é nos dar a possibilidade de permanecermos fiéis ao que cremos, sem precisar desrespeitar o direito do outro de assumir e viver outra fé. No final das contas, exceto por quem se beneficia com a opressão, injustiça e desigualdade, a maioria de nós quer o mesmo fim: justiça, igualdade, amor. Mas estamos olhando com óculos e por ângulos diferentes, formados pelas experiências de vida que tivemos, pelas leituras e vivências. Muitas vezes estamos vendo o mesmo elefante, ora como cauda, ora como tromba. Deixemos pois de gritar, apenas: cauda, cauda... ou tromba, tromba. E procuremos, humildemente, nos interessar por conhecer os outros lados.

* Publicado originalmente em novembro de 2013 no facebook

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