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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Aos olhos nus

Não é fácil pensar diferente da grande maioria das pessoas. Ainda que estejamos plenamente convictos do que pensamos, não é fácil.
Você não acha interessante como às vezes algumas situações em nossas vidas fazem surgir questionamentos e reflexões existenciais, sociais, psicológicas, etc? Hoje tive um daqueles momentos.
Pensei em uma família rica. Calça jeans de R$ 500,00, óculos de sol de R$ 600,00, apartamento de algumas centenas de milhares de reais, educação de primeira para os filhos (futuros grandes empresários), viagens ao exterior, amizades influentes, os melhores profissionais e estabelecimentos médicos para o cuidado de suas saúdes, geladeiras e armários fartos das mais diversas e caras guloseimas, etc. São pessoas muito importantes. Estar ao lado de uma delas faz até com que nos sintamos algo próximo do nada. Não vemos a pessoa e sim o que ela tem. E o que ela tem reflete o que ela é.
Em seguida me veio a imagem de uma família pobre. Roupas rasgadas há muito recebidas usadas por outras pessoas (não ricas, mas menos pobres que as compraram na C&A parcelado em dez vezes). Moradores de barracos precariamente construídos em terrenos invadidos, sem saneamento e esgoto. Educação de terceira para os filhos (os que conseguem se manter na escola). Alimentação e saúde é a sorte quem decide pela vez do sim e do não. Se o que elas têm reflete o que elas são poderíamos considerá-las como pouco menos que os animais.
A velha questão do “por que tão poucos com tanto e tantos com tão pouco” não cala. Pensei também em como medimos as pessoas em um mundo capitalista como o nosso. O quanto damos valor a quem tem muito e desvalorizamos àqueles que tem pouco ou nada. O quanto nos sentimos intimidados diante de alguém identificado por nós como “importante” pelo que tem.
Lembrei daquele filme em que um homem muito bem sucedido ficava preso em uma ilha sozinho após um desastre de avião. Passou alguns anos naquela ilha sem contato com ninguém. Tudo o que tinha agora não valia de nada. Nessa ilha não adiantaria ter muito dinheiro na carteira ou na conta bancária. Não havia comunicação. Sozinho nessa ilha ele não é nada. Não há ninguém para admirá-lo, elogiá-lo, etc. Não há títulos acadêmicos. Ninguém está interessado se sua roupa é de marca ou não, nem ele. Ele tem que lutar para sobreviver. Sua barba cresce, sua roupa é única e o sapato tomou de um cadáver, vítima do acidente. Alimenta-se de coco e peixes conseguidos por suas próprias mãos. Naquele mundo qualquer pessoa seria bem-vinda para um bom papo (até uma bola Wilson). Inclusive aquelas que porventura tenham passado por ele despercebidas ou que até mesmo tenham sido desprezadas por ele por não terem nenhuma posse. Qualquer mulher que ele já tenha olhado com o olhar de desprezo julgando-a incapaz poderia ser inclusive sua esposa nesse seu novo mundo. Nesse mundo ele estava nu. Nu de tudo o que o tornava alguém importante. Nu de todas as suas posses.
Essa idéia de nudez é interessante. A nudez torna todos iguais. Se tivéssemos a experiência de observar pessoas ricas e pobres nuas juntas – Lembro de uma foto que causou escândalo: Foi um artista que fotografou milhares de pessoas nuas amontoadas – seria uma missão impossível separar ricos e pobres. Todos são iguais: seres humanos. Nascem, fazem xixi e cocô (perdão por não pedir perdão pela palavra), sangram, adoecem, riem e choram, sofrem e têm prazer, vivem e morrem. E está aí outra coisa que iguala todos: a morte. Em um dos cemitérios em que estive fiquei observando uma caveira e não consegui enxergar no esqueleto traços que me informassem se pertenceu a um rico ou a um pobre em vida. A morte torna todos iguais. Esqueletos são nus.
Observei também que as crianças não ligam muito pra esse negócio de posses. Junte várias crianças ricas com várias outras pobres numa sala cheia de brinquedos e elas farão amizades umas com as outras, brincarão juntas e não saberão que vivem em circunstâncias diferentes. Não saberão se a roupa do outro foi mais cara do que a sua (mais cara, o que é isso?). Mais tarde elas aprenderão que não devem ser amigas. Contato profissional talvez (patrão-empregado). Mas, enquanto isso não acontecer, a única coisa que as impedirá de se relacionarem serão os pais que já aprenderam a lição. Isso porque as crianças conseguem enxergar a nudez umas das outras. A nudez do “ter”.
Fico me questionando muitas vezes se somos seres tão inteligentes assim. Se de repente os animais não estariam mais evoluídos do que nós. Fazemo-nos escravos de nossas próprias criações. Toda nossa criação útil assumirá um dia um papel também estético discriminatório. Roupas que um dia foram úteis apenas para cobrir o corpo hoje expressam o poder aquisitivo e junto com vários outros acessórios e técnicas de produção determinam se o rapaz ou a moça é interessante ou não para namorar. Os automóveis que surgiram para estreitar o caminho entre uma pessoa e outra separam, através de seus vidros fechados, o mundo de “gente interessante” e “gente desprezível”. Cursos superiores considerados melhores são os que pagam melhor. Logo um médico e um advogado é muito mais do que um professor ou assistente social. É assim também que julgamos um político, que através de sua má fé causa a morte e desgraça de várias pessoas, mais inocente que um garoto que assalta um ônibus para alimentar sua família.
Como gostaria que fôssemos nus aos olhos uns dos outros. Que olhássemos para as pessoas como pessoas e não como proprietários. Aos de mais posses resta o desafio de reconhecer nos de poucas ou nenhumas posses a importância de um ser. Aos de poucas ou nenhumas posses também o desafio de saber que ninguém tem tudo. Que os ricos são pessoas que também tem suas necessidades, embora estas não sejam materiais. E que há oportunidades pertencentes apenas aos pobres da mesma forma que algumas cabem apenas aos ricos.

“...Quem é rico anda em burrico. Quem é pobre anda a pé. Mas o pobre vê nas estrada. O orvaio beijando as fulo. Vê de perto o galo-campina. Que quando canta muda de cor. Vai moiando os pés no riacho. Que água fresca, Nosso Sinhô. Vai oiando coisa a grane. Coisas que pra mode vê. O cristão tem qui andar a pé.” (Luiz Gonzaga – Estrada de Canindé)

Não desejo um mundo onde todos tenham as mesmas posses. Onde não haja ricos e pobres. Mas num mundo onde ser rico ou ser pobre não represente melhores ou piores oportunidades, mais ou menos direitos, muito ou pouco caráter, todo ou nenhum valor, ser ou não ser alguém. Num mundo onde todos aos olhos parecem nus.

10/04/2005

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