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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Hipocrisópolis

Não eram apenas os seus pensamentos que, confusos pelo pesadelo do qual acabara de se libertar, arfavam completamente obscurecidos. Não havia sequer um pequeno facho de luz naquele aposento. Está com medo. O coração martela um som quase ensurdecedor aos seus ouvidos. Tateando as paredes e objetos aparentemente desconhecidos, consegue chegar até ao que parece ser uma cortina velha e empoeirada. Com uma das mãos desnuda a luz que lhe cega momentaneamente os olhos, fazendo invadir o dia àquele ambiente sórdido e sombrio que se lhe acaba de apresentar. Não! Nunca antes estivera nesse quarto. Não lembra. Os pensamentos ainda confusos de quem acredita nem ter acordado ainda. A vista já lhe volta aos olhos quando procura respostas através do vidro da janela. Olha para o seu relógio, são dez da manhã. Aproxima-se mais e mais daquela transparência que poderá trazer ainda mais luz ao seu momento inquietante.


Apóia a fronte no vidro e arremete ao exterior os olhares angustiosos e sedentos de um qualquer conhecido que lhe traga segurança. Vê pessoas, mas algo lhe parece muito estranho. Todos são iguais! Não, não é nenhum jargão para expressar um ideal subjetivo qualquer de semelhança entre seres da mesma raça. São exatamente iguais, andam iguais, fazem as mesmas coisas. Aquela pele branca como a mais branca nuvem, escondida apenas da altura das coxas ao pescoço pelo que parece um casco de tartaruga gigante, de onde saem as pernas, os braços e cabeça. Não tinham cabelos. Andavam arrastando a perna esquerda e com a mão direita segurando a nuca. Seguiam em fila, sincronizados nas mesmas atividades. Por algum momento desejou ardentemente voltar ao pesadelo anterior, o qual tinha certeza não ser real. Não bastava ter acordado em um ambiente tão desconhecido como aquele estranho quarto em que estava. E agora impossibilitado de se libertar por uma limitação de identidade. Era o único diferente naquela região. Percebe um grande espelho na parede e se aproxima apenas para confirmar a sua estranheza diante daquela população totalmente desconhecida. Estava aprisionado pelo medo de que a sua diferença não fosse bem-vinda àquele mundo harmonioso.


Alguns dias observando através do seu portal secreto, já consegue narrar tudo o que vai acontecer em cada momento do dia. Tudo é muito repetitivo e previsível, até que um dia algo novo lhe atrai, trazendo uma forte esperança. No meio de toda a sincronia e harmonização surge uma aberração. Um diferente. Diferente como ele mesmo. Não igual a ele, mas semelhante, portanto diferente dos demais. Não arrasta nenhuma das pernas ao andar, não tem as mãos segurando a cabeça e a pele não é da mesma cor. Não possui aquele casco e tem cabelos. Um círculo perfeito é formado redor do novo estranho e matematicamente sincronizado é iniciado um processo coletivo de apedrejamento. Aquela cena não poderia ser pior para ele. Aquele fiozinho de ânimo deu rapidamente lugar a um medo sem igual em toda a sua vida. Se olha novamente no espelho e é tomado completamente de uma amargura tão profunda quanto a própria eternidade. E é nesse momento sem saída que repara pela primeira vez um baú quase que escondido por trás de uns objetos jogados em um canto de parede. Ao abrir e vislumbrar o que abrigava o seu interior teve a mais iluminada das idéias daqueles últimos dias de escuridão. Era um casco exatamente igual ao que aqueles agressivos habitantes usavam. Bastava apenas completar uma produção que lhe permitisse tornar-se parecido o suficiente para não ter a sua diferença percebida pelos demais.


Não demorou muito para encontrar ali mesmo tudo o que precisava. E em poucas horas, após inúmeros olhares ao espelho e retoques intermináveis, estava perfeitamente igual a todos aqueles que deveria muito em breve encontrar. Alguns ensaios ao espelho e a postura, o andar, todos os movimentos eram idênticos. Sairá pela primeira vez daquele lugar desconhecido onde de uma forma desconhecida foi parar. E sai, repetindo os movimentos que tanto observara de como cada um saia de sua casa para se juntar à sincronia coletiva. Repete todas as atividades que já havia decorado durante aqueles dias que foram os mais sombrios de toda a sua vida. E consegue passar o primeiro dia de alívio depois desse novo e incômodo desconhecido que têm vivido. Finalmente aceito e livre. Não precisará mais ficar trancado dentro daquele quarto angustiante. Livre! Livre! Livre! Livre? Ah, se pudesse ver o que acontece exatamente agora quando volta para o seu quarto nessa mesma hora em que cada um daqueles se recolhe ao seu lugar. Se pudesse ver quanto tempo cada uma daquelas pessoas passam em seus aposentos solitários se produzindo e ensaiando os movimentos que lhe trará aceitação do coletivo. Se cada um soubesse! Poderiam ser um dia livres de verdade.

4 comentários:

J. Park disse...

Bruno, o texto, sintetizadamente, refere-se à superficialidade social?

Bruno Montarroyos disse...

Se pudesse resumir em uma palavra essa palavra seria "máscaras". Um outro título seria "A cidade das máscaras". Fala de uma moralidade imposta pelo cotidiano coletivo que não é praticado por ninguém individualmente embora cada um precise fingir vivê-la no coletivo.

joelma disse...

Esse texto me faz pensar no quanto temos que sofrer para nos ajustar aos costumes sociais, cuja existencia nos precede e que nos são impostos de maneiras tão cruéis.
Gostaria muito de sair as ruas sem máscaras.

Tales Messias disse...

Bruno,

parabéns pelo texto. Muito bom. E real. Forte abraço