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sábado, 8 de março de 2014

Quem são elas? Quem elas pensam que são?

Na antiguidade já foram consideradas deusas. Isso porque, diferente dos homens, tinham o poder misterioso de gerar vida. A capacidade de ter dentro de si a formação de um novo ser, a quem apresentaria o mundo externo já, assim, completamente formado, à sua imagem e semelhança. Tal poder misterioso era visto como um indicador da sua divindade.

Na mitologia grega, as deusas do olimpo eram igualmente temidas e respeitadas, as cinco entre os doze ou as seis entre os quatorze citados como parte do dodecateon. Entre os seis deuses de primeira geração, elas eram em três.

Em toda a história da raça humana já foram e têm sido guerreiras e pacifistas, sujeitos e objetos, vítimas e cuidadoras, mães e órfãs, livres e escravas, conhecedoras e analfabetas, ousadas e reprimidas. Em cada contexto específico, mais umas dessas coisas que outras.

Quando o assunto é a casa, ainda hoje o título “Dona de casa” ainda aparece como correlato feminino do título masculino “Chefe de família”. Enquanto ele é o cabeça do lar, responsável pela logística econômica, intelectual e decisória, ela é a responsável direta pelos serviços domésticos e educação dos filhos. Acumula, assim, a função de babá, cozinheira, faxineira, lavadeira, professora e muito mais. E desde a mais tenra infância já vai aprendendo o seu lugar. Muita coisa já mudou nesse sentido, mas, ainda hoje, mesmo as pessoas mais libertas pelas conquistas do feminismo, mantêm sempre incrustado em seu ser algum traço deixado por toda uma história de machismo injusto.

Se trabalho é o assunto, é já bem constatado que, apesar de todos os avanços, as mulheres ainda são remuneradas por valores bem inferiores aos homens quando assumem os mesmos cargos. E à desigualdade nas remunerações, somem-se, igualmente, o reconhecimento, o respeito, as oportunidades, a estabilidade, etc.

Se mudarmos o assunto e começarmos a falar de sexo, aí é que a coisa pega. O homem pode tudo, sempre pôde. E à mulher resta a condição de reprimida, de agente passivo, de objeto, de timidez, de silêncio. Qualquer indicação de ousadia, de vontade própria, de expressão de desejo ou necessidade de prazer, será interpretada como constatação de desvio perverso do seu comportamento. Será nomeada vadia, puta, fácil, ou qualquer outro desses nomes, usados em tom depreciativo, que são os equivalentes femininos para os termos masculinos, usados em tom enaltecedor. Às vezes até o mesmo termo ganha uma interpretação diferente em cada gênero.

Tarado: (não o de verdade, mas o termo usado para um homem normal): Homem que expressa a sua sexualidade de forma intensa, homem de sexualidade forte, que gosta muito de sexo, etc.

Tarada: Mulher que “dá” pra todo mundo, puta

Devasso: Homem que “pega” muitas mulheres, garanhão, gostosão, fodão.

Devassa: Mulher que “dá” pra todo mundo, puta.

Pegador: Pega todas as mulheres, garanhão, o bom, o gostosão.

Pegadora: Mulher que “dá” pra todo mundo, puta.

Homem que diz “comi Fulana, Sicrana e Beltrana”: Herói, garanhão, viril, sexualidade forte, etc.

Mulher que diz “dei para Funano, Sicrano e Beltrano”: Mulher que “dá” pra todo mundo, puta.

Puta: Nas definições acima não é a mulher que vende sexo, mas um indicativo de que a mulher não presta, é inferior, não é gente, só serve para sexo e sexo sem respeito nem carinho, é quase bicho, não merece ser respeitada, muitas vezes nem como ser humano, muitas vezes merece até ser violentada, no corpo e na alma.

Puto: Homem que não é homem, gay, portanto merece os mesmos preconceitos e violências que uma mulher, até mais.

 

Bem, são só alguns exemplos. Talvez até você, liberto ou liberta pelo nosso feminismo contemporâneo, vez por outra ainda se flagre pensando parecido. É uma pena, mas é a nossa realidade ainda.

Se você é homem, aproveite este dia de hoje para pensar: “quem são Elas?”. O que fariam sem elas? Como viveriam? Como as têm tratado? Como você as enxerga? Não apenas aquelas que são as “outras” da tua vida. E com “as outras” quero dizer aquelas que não fazem parte da tua vida, que não se relacionam contigo. Para essas, acredite, é mais fácil levantar bandeiras, defender direitos, lutar, expressar opiniões libertadoras em favor delas. Mas quero, principalmente, que pensemos nas nossas mulheres, “as umas”, essas que estão ao nosso redor, que convivem conosco. Começando pela sua mãe, avó, esposa, filhas, tias, cunhadas, noras, estendendo-se às colegas de trabalho, de estudo, etc. Quem são elas?

Você é mulher? Então quero te desejar muita liberdade. Espero que você saiba quem é. Espero que o contexto machista não tenha obscurecido a tua visão do próprio ser. Espero que saiba e aja sabendo que és tão humana quanto qualquer homem. Desejo a você a lembrança constante de que, seja em casa, no seu lar, seja no seu trabalho, na rua, na escola, no comportamento, no sexo, na linguagem, nos  direitos e deveres, és tão humana quanto qualquer homem. E nunca aceite nem reproduza um pensamento ou comportamento que interprete como mal um ato seu que, se fosse ato de um homem, seria interpretado como bom. Se indica humanidade para ele, indica para você também.

Tenho muitas mulheres. As cinco principais são minha mãe Ozinete, minha esposa Cristiane, minhas filhas Hanna, Sofia e Lis. Quando me pergunto “Quem são elas para mim?”, consigo resumir dizendo que são os maiores tesouros da minha vida. São seres e não posses. São sujeitos e não objetos. São capazes de liderança, de decisões. São autônomas e possuem vontades e desejos próprios. Mesmo carregando cicatrizes de uma formação social machista, tento enxergá-las com um viés de igualdade. E desejo que sejam mulheres libertas, sem medo, sem culpa.

A todas as mulheres, parabenizo pelas conquistas e desejo muito mais. Desejo liberdade, plena e portadora do prazer de viver. Desejo transformação progressiva no mote “quem elas pensam que são?”. Que pensem, reflitam como são vistas (realidade), quem têm sido (sua história), quem devem ser (seu Ser). Que se empoderem com ousadia, sem medo, sem culpa. Que desconstruam, primeiro o interior de si mesmas, e depois todo o universo exterior onde coexistem.

Perdoem-me as palavras fortes usadas, talvez incoerentes com um texto de homenagem, mas a homenagem é sincera, do meu jeito.

Quem é você, mulher? Quem você pensa que é?

P.S. Muitas das comparações usadas, principalmente no assunto sobre a sexualidade, não expressa juízo de valores, nem no julgamento conferido aos homens nem às mulheres, mas simplesmente traduz o pensamento que domina na interpretação para cada gênero. Que as lutas das mulheres, ao exigir igualdade, continue não reproduzindo algumas superficialidades predominantes no pensamento masculino.
 

08 de março de 2014

Bruno Montarroyos

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