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domingo, 4 de maio de 2014

Capitalismo para os outros, mas comunismo para os meus

Tente imaginar a cena: Um adolescente, negro e forte, puxou com violência a bolsa daquela velhinha indefesa, e saiu correndo, deixando-a apavorada e caída no chão. Imaginou? Que sentes? Imaginou a cena? Tentou fazer o exercício de se sentir parte da cena? E aí, quais os seus sentimentos pelo garoto da cena?

Agora eu irei acrescentando ou alterando algumas informações e você continuará fazendo o exercício. A velhinha da cena é, na verdade, sua mãe, já idosa. (caso não tenhas referência de mãe, substitua por uma pessoa a quem ame extremamente, pode ser sua filha, por exemplo). E agora, quais os seus sentimentos pelo garoto da cena? Continuam os mesmos? Há diferenças pelo menos na intensidade dos sentimentos? Certo, sigamos…

Que a velhinha volte a ser uma pessoa desconhecida. Mas você teve a informação de que o adolescente que fez isso, o fez porque estava desesperado de fome e, como ninguém lhe deu comida, ele viu na bolsa da velhinha a possibilidade de comprar comida. Isso alterou alguma coisa nos seus sentimentos?

Bem, além disso, você descobre também que esse adolescente foi pego na próxima esquina e que estava sendo espancado por outras pessoas que presenciaram o crime. Enquanto o espancavam, ele gritava que estava com fome, precisava comer, que não tinha ninguém na vida, que fora abandonado pelos pais. Mudou algo nos seus sentimentos?

Ainda depois, já depois de o adolescente morto, você descobre que ele era seu filho (você, pai ou mãe deste adolescente, pode substituir a cor inicial do adolescente por sua própria cor). Foi um filho que você já estava sofrendo há anos com o seu desaparecimento. Ele tinha apenas dois anos à época e se perdeu por causa da sua negligência para só agora ser reencontrado por você, nessas condições. Passou por várias famílias pobres, moradores de rua, sofreu violências, maus tratos, e por isso, resolveu tentar a vida sozinho, ainda criança. Mas ninguém olhava para ele como gente. O olhavam como marginal, como alguém que estava só esperando o momento de atacar. E como era difícil para aquela criança ser olhada como marginal todo o tempo. Não lhe davam comida, nem teto, nem carinho, nem ouvidos. Lei? direitos? Não havia sequer uma dessas coisas que lhe pudesse alcançar. Ora, mas se não havia lei que o amparasse, deveria haver, em sua compreensão, alguma que lhe fosse necessário obedecer? E a sua última cena fora aquela, se vendo entre a possibilidade de morrer de fome ou de procurar, em um lugar onde suas forças poucas o permitissem, uma possibilidade de sobreviver um pouco mais. E foi assim que usou todas as suas forças para puxar de vez a bolsa da velhinha para depois tentar comprar comida, já que o dinheiro nesse mundo vale muito mais do que a sua história de vida, do que a sua própria vida. E aí, saber que aquele adolescente da história inicial era o seu filho perdido, que lhe custou tantas lágrimas, e saber que agora estava morto, mudou os seus sentimentos em relação ao adolescente? Saber que a sua negligência foi, em grande parte, a causa de tudo aquilo mudou alguma coisa na sua cabeça também?

Pois é, apesar de fictícias, essas suposições tem muito a ver com a realidade. Uma realidade fruto de nossa negligência como cidadãos, por exemplo. Condenar é sempre mais fácil. Querer aplicar justiça severa a quem nunca foi alcançado pela justiça, por exemplo. Nos fala sobre quem dá a notícia, o que informa e o que omite, seu recorte, interfere diretamente nas minhas interpretações. Várias coisas mais. Vá pensando...

Quando um hospital deixa de executar algum procedimento em um paciente, deixando-lhe morrer, para não ter prejuízo financeiro, esse hospital está sobre orientações capitalistas, onde o dinheiro é o centro. Para o dono do hospital o seu prejuízo financeiro é mais importante do que a vida de desconhecidos. Se um procedimento indica prejuízo é porque não está pago. Se não está pago, não é devido. Coisas de meritocracia. Ele é um capitalista? Mas se a mãe dele for o paciente, em um outro hospital concorrente, ele espera desse hospital um trato socialista/comunista para com sua mãe e não um trato capitalista. Logo, ele é capitalista para os outros, mas comunista para com os seus. A diferença, então, se você parar para pensar, entre um capistalista e um comunista ou socialista, é que aquele primeiro deseja o comunismo/socialismo apenas para os seus e os últimos o desejam para todas as pessoas.

Engraçado é ouvir, ainda nos dias de hoje (e as experiências históricas negativas de comunismo não me servem de justificativa, pois tenho visto resultados muito mais cruéis dos nossos capitalismos), que os termos “comunista” ou “socialista” sejam vistos por muitos como perjorativos ou até usados em forma de xingamento.

Os exemplos fictícios acima conseguem expressar bem a realidade de coisas que acontecem muito:

- Os nossos interesses moldam as nossas percepções e inclusive os nossos preconceitos. É fácil condenar alguém sem conhecer a sua história de vida. Mais fácil ainda quando esse alguém não é “dos nossos”;

- Até o mais severo capitalista deseja que os seus sejam tratados por comportamentos socialistas ou comunistas. Não querem que as pessoas de fora, principalmente em momentos críticos, considerem o dinheiro mais importante do que a vida dos seus.

Dedico esses pensamentos a qualquer pessoa que suspeite me incomodar quando me chama de “comunista” ou “socialista”. E respondo: Com muita paz na consciência.

Bruno Montarroyos

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