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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A morte do meu pai: variações sobre o prazer e o tempo


Ainda no caminho de sentir melhor o chão, após a perda do meu melhor amigo e pai, há pouco mais de um mês, tenho passado estes dias.


Eu achava que conhecia a morte. Mas tenho aprendido que só a conhecemos quando ela chega ao nosso círculo menor de convivência.

Uma experiência que me fez lembrar de Gilgamesh, aquele guerreiro da mitologia mesopotâmica. Ele também só conheceu a morte de verdade quando perdeu o seu único companheiro de batalha, Enkidu.

Enkidu, que havia sido contratado para matar Gilgamesh, termina perdendo a sua condição divina quando experimenta os prazeres humanos com uma prostituta. Perde a sua inocência e condição divina e se torna conhecedor do bem e do mal, e agora um amante dos prazeres humanos. Torna-se também o melhor amigo de Gilgamesh, e seu companheiro de batalha.

Exatamente o comportamento que promove a entrada de Enkidu no mundo dos prazeres humanos é o mesmo comportamento que pode-se julgar como o responsável pelo encurtamento da sua existência.

Assim foi a opção de vida do meu Pai, Abelardo, quando não se permitiu abrir mão de um estilo de vida que lhe proporcionava prazer (isso não impedia e nem se opunha à sua dedicação extrema para promover a qualidade de vida daqueles que estavam ao seu redor). Não gostava de estar em médicos, não ia. Gostava de comer isso e aquilo, comia. Vivia rindo, brincando, enfrentando até os seus maiores problemas sempre com um bom humor gigantesco. Vivia dizendo que se algum dia precisasse viver uma vida tomando remédios, indo a médicos, fazendo dieta alimentar, preferia morrer antes. Assim como preferia morrer antes de qualquer um de seus filhos, netos ou mulher. Não era uma vida que desejava a morte, pelo contrário. Desejava viver muito. Só não aceitava viver de qualquer jeito. Viver muito sim, mas só se for muito bem, era a sua escolha.
Gilgamesh, como eu, perdeu o seu principal companheiro de luta, único na verdade. E se deparou com a morte de verdade pela primeira vez. Mas a inquietação de Gilgamesh o levou a um caminho diferente do de Enkidu. Este havia escolhido a intensidade da vida em detrimento da quantidade de tempo de vida. Mas Gilgamesh iniciava agora sua jornada em busca da imortalidade. Ele queria se livrar do destino do amigo.

E é nesta reação à morte próxima que quando comparo a minha perda com a de Gilgamesh me distinguo. Me firmo ainda mais optando pela intensidade de vida, na vivência do prazer (ao mesmo tempo que luto para ampliar também o prazer de outros), do que na quantidade do tempo de vida. Claro que farei as minhas concessões, buscando um equilíbrio, afinal, se puder ter prazer nessa vida por mais tempo será sempre melhor. Só não aceitarei também me privar de uma vida de prazer só para viver mais. Não me trancarei dentro de casa temendo a violência. Não terei medo de experimentar coisas novas temendo errar. Quero sabor, quero intensidade, quero vida, quero prazer, ter e dar. Afinal, entre morrer aos sessenta como o meu pai, tendo vivido intensamente tanto para si quanto para os seus. Ou morrer aos cem sem nunca ter vivido de fato. Prefiro uma morte que interrompa uma curta vida de intensidade do que uma morte que chega para uma vida já morta há um longo período de tempo.

28/01/2015

Bruno Montarroyos
Mestre em Ciência Política (Relações Internacionais) pela UFPE
Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas Regionais e do Desenvolvimento - D&R-UFPE (CNPq) e do Grupo de Estudos Subalternos, Periféricos e Emergentes - D&R-UFPE
Pastor Batista, membro-fundador da Aliança de Batistas do Brasil
bmontarroyos@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/6581290148822998

Um comentário:

Ana Paula Duarte disse...

Comento meio que não comentar...popis entramos no campo do indizível...Só digo que a tua dor se assemelha a minha. Mas, hoje, 07 meses de minha perda me sinto mais fortalecida. A morte também nos ensina.
Forte abraço, fique com Deus(a)!